DOCUMENTOS VOCACIONAIS-TEXTO-BASE DO ANO VOCACIONAL 2003-II CONGRESSO VOCACIONAL

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

Setor Vocações e Ministérios

Grupo de Assessoria Vocacional

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BATISMO:

FONTE DE TODAS AS VOCAÇÕES

“Avancem para águas mais profundas”

(cf. Lc 5,4)

 

 

 

TEXTO-BASE DO ANO VOCACIONAL 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Brasília – DF

2002


APRESENTAÇÃO

Logo após a aprovação, por parte de todo o episcopado brasileiro, de um Ano Vocacional para 2003, nós do Setor Vocações e Ministérios (SVM) da CNBB iniciamos os trabalhos de preparação, começando pelo tema e pelo lema. Estes foram escolhidos pelo Grupo de Assessoria Vocacional (GAV), depois da consulta feita aos 62 participantes do 15.º Encontro Nacional de Pastoral Vocacional, realizado em Brasília (DF), durante o mês de outubro de 2001.

A consulta feita indicava como importante e necessária a elaboração de um Texto-Base, capaz de oferecer a fundamentação básica, teológica, a partir da qual os Regionais e as Igrejas locais iriam elaborar os seus subsídios e traçar a sua programação.

O texto-base, que tenho a alegria de aprovar e de apresentar, oferece uma reflexão sobre o tema e o lema do Ano Vocacional de 2003. Ele está dividido em três partes: a) análise da realidade; b) reflexão bíblica; c) avanços e pistas de ação. Foi elaborado a partir da intuição original do papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, com a colaboração de mais de 100 especialistas no assunto. Durante oito meses, sob a coordenação do SVM, várias mãos trabalharam e se esmeraram para oferecer à Igreja no Brasil um subsídio denso e bastante significativo.

Quem estudar atentamente este texto-base, notará que o seu fio condutor é o parágrafo 46 da mencionada Carta Apostólica de João Paulo II. Nele devem ser encontradas também as quatro chaves de leitura e de interpretação deste subsídio: 1) necessidade de uma vasta e capilar animação vocacional que envolva todas as componentes do Povo de Deus; 2) animação vocacional que, além do ministério ordenado e da vida consagrada, cuide de todas as outras vocações que brotam da riqueza do sacramento do batismo; 3) atenção especial à vocação dos cristãos leigos e leigas, com destaque para os ministérios não-ordenados, a família e o matrimônio; 4) unidade da Igreja, que não é uniformidade, mas interação das legítimas diversidades. Tais chaves interpretativas não podem ser vistas de formas dissociadas, mas na dinâmica da complementaridade e da interdependência.

Este texto-base não tem a pretensão de dizer tudo sobre a temática. Não quer também substituir a necessária reflexão, elaborada a partir da realidade de cada diocese ou paróquia. Ele quer ser um simples instrumento de trabalho, com o objetivo de apenas favorecer o impulso vocacional das Igrejas locais e o vigor missionário das comunidades eclesiais.

Fazemos votos de que o Ano Vocacional de 2003 possa “dar espaço a todos os dons do Espírito” (NMI, 46). Que, a partir desta iniciativa da Igreja no Brasil, todos sintam-se revigorados e animados na caminhada vocacional. E, de uma Igreja com fisionomia vocacional (cf. PDV, 34) brotem numerosas vocações para as diversas vocações específicas, particularmente para os presbitérios diocesanos e para a vida consagrada.

Maria, a grande vocacionada do Pai, nos acompanhe neste grande mutirão vocacional.

 

Brasília, 6 de agosto de 2002.

Festa da Transfiguração do Senhor

 

Dom Angélico Sândalo Bernardino

Bispo de Blumenau (SC)

Responsável pelo Setor Vocações e Ministérios da CNBB


INTRODUÇÃO

1.   A 39.ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, celebrada no mês de julho de 2001, aprovou por unanimidade a realização do segundo Ano Vocacional em 2003. A aprovação unânime por parte dos bispos faz da proposta do Ano Vocacional um Projeto para toda a Igreja no Brasil, e não apenas uma indicação para aqueles que estão envolvidos diretamente na animação vocacional. Por esta razão o Ano Vocacional deverá atingir e envolver toda a dinâmica evangelizadora e todo o serviço pastoral das comunidades cristãs.

Contexto

2.   A realização deste Ano Vocacional insere-se num momento bastante significativo. Antes de tudo, os 50 anos da CNBB, acontecimento este que sugere uma profunda revisão da missão evangelizadora. Dentro deste contexto, o Ano Vocacional apresenta-se como sendo “o sal e a luz” que dão sabor e vida a diversos projetos pastorais que estão em andamento1. No âmbito das vocações e dos ministérios, fazemos memória do 20.º aniversário do primeiro Ano Vocacional realizado em 1983, o qual foi para toda a Igreja no Brasil um tempo de graça, gerando uma nova mentalidade e uma nova consciência vocacional.

3.   Outro elemento do contexto é a necessidade da aplicação das propostas do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, celebrado em 1999, que teve como tema: “Vocações e Ministérios para o Novo Milênio”. Nesse clima, o Ano Vocacional vai contribuir para preparar a realização do 2.º Congresso Vocacional, já aprovado pelos bispos, marcado para o período de 2 a 6 de setembro de 2005. Chamará a atenção para a prioridade do SAV2, tantas vezes evidenciada pelo Magistério da Igreja e pela prática de numerosas comunidades eclesiais. 

Objetivo

4.   Dentro deste contexto, o Ano Vocacional tem como grande objetivo ajudar a Igreja a perceber-se como “assembléia dos vocacionados e vocacionadas”. Sabemos que “a vocação define, em certo sentido, o ser profundo da Igreja ainda antes do seu operar. No próprio nome da Igreja, Ecclesia, está indicada a sua íntima fisionomia vocacional, porque ela é verdadeiramente ‘convocação’, Assembléia dos chamados” (PDV, 34).

5.   Com a realização do Ano Vocacional em 2003 a Igreja no Brasil pretende motivar todos os batizados para que se reconheçam como pessoas que foram chamadas pelo Pai (Jo 6,44.65), escolhidas pelo Filho (Jo 15,16) e enviadas em missão pelo Espírito (At 13,1-3). Esta consciência vocacional criará a convicção de que todos, sem exceção, somos vocacionados a sermos santos no amor (Ef 1,4); levará também a uma animação vocacional que inclua todas as vocações, de que a comunidade tem necessidade para cumprir a sua missão.

6.   O sonho deste Ano Vocacional é tornar concreta a proposta de João Paulo II (PDV, 34), ajudando a nossa Igreja a ter, de fato, uma fisionomia vocacional; um povo convocado pela Trindade para o serviço em favor da vida, da humanidade, de modo particular dos que são excluídos, com os quais Cristo quis se identificar (cf. Mt 25,31-46). Se houver esta consciência profunda de que somos pessoas chamadas para a missão, o nosso agir será mais concreto, corajoso, animado e constante.

7.   Outro elemento a ser dinamizado, fundamental para a vitalidade da Igreja, é a convicção de que todos os batizados, sem exceção, são responsáveis pelo cuidado das vocações; a consciência de que o protagonista, o sujeito ativo da animação vocacional é a comunidade eclesial enquanto tal e não apenas algumas pessoas3. Junto com o protagonismo vocacional surge a paixão pelo anúncio da Palavra, suscitando na Igreja “uma nova missionariedade, que não poderá ser delegada a um grupo de ‘especialistas’, mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus” (NMI, 40).

8.   O resultado desse processo – a ser finalmente atingido em todo o Brasil – é que as dioceses, paróquias e comunidades deixem de considerar a dimensão vocacional como um elemento secundário, um acessório, uma pastoral a mais, um momento isolado, uma “simples parte” da pastoral global. Sonha-se, a partir deste Ano Vocacional, com a graça de chegarmos à convicção, traduzida numa prática concreta, de que a dimensão vocacional, mais do que uma pastoral entre outras, é uma dimensão conatural e essencial para a vida da Igreja e para a sua ação evangelizadora (PDV, 34).

Tema e lema

9.   O tema e o lema escolhidos contribuirão para a conquista destes objetivos do Ano Vocacional. O tema – Batismo, fonte de todas as vocações – pretende ressaltar o fato de que todas as pessoas batizadas são chamadas para a missão. Pelo batismo somos sepultados (mergulhados na fonte) com Cristo na sua morte para sermos pessoas ressuscitadas, plenas de vida (cf. Rm 6,1-11). Pela água da fonte batismal todas as pessoas são enxertadas em Cristo (cf. Rm 6,3), inseridas no seu Corpo (cf. 1Cor 12,13) para, na diversidade de carismas (cf. 1Cor 12,4-31), servirem à comunidade e à humanidade. O batismo é a fonte da comum dignidade e da legítima diversidade (cf. LG, 32).

10.  A graça recebida no batismo faz-nos pertencer a Cristo, rompendo com qualquer pretensão de desigualdade no interior da comunidade (cf. Gl 3,25-29). O que importa, em primeiro lugar, não é ser bispo, padre, freira, diácono, leigo, leiga, mas discípulo, discípula de Jesus. A vocação é, antes de tudo, chamado para o seguimento de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, esta graça batismal permite e exige a diferença e a diversidade de carismas, ministérios e funções, evitando a confusão e o nivelamento no interior das comunidades (cf. 1Cor 12,14-21). Por isso, a animação vocacional deve ter a preocupação de ajudar cada pessoa batizada a descobrir-se como alguém que foi chamado por Deus para uma vocação específica bem concreta.

11.  A partir disso, a Igreja precisa “dar espaço a todos os dons do Espírito. A unidade da Igreja não é uniformidade, mas integração orgânica das legítimas diversidades” (NMI, 46). Além da preocupação com as vocações para o ministério ordenado e para a vida consagrada, a animação vocacional deve consolidar cada vez mais a vocação dos cristãos leigos e leigas e fazer florescer todos os demais ministérios de que a comunidade eclesial e a humanidade sentem necessidade4. Deve promover e incentivar todas as vocações “radicadas na riqueza da vida nova recebida no sacramento do batismo”5.

12.  O lema “Avancem para águas mais profundas” é inspirado no texto de Lc 5,4, que foi tomado pelo papa João Paulo II como elemento dinamizador da Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte. Sua finalidade é provocar a Igreja, comunidade de vocacionados e vocacionadas, a “fazer-se ao largo”, isto é, avançar, ousar, rompendo com toda estagnação ou acomodação. A forma no plural quer evidenciar também a diversidade, falando a todas as vocações específicas. Todas devem avançar, ir além, respondendo com prontidão ao chamado da Trindade. É um convite a viver o momento presente com paixão, mas tendo a coragem de abrir-se para o futuro, para o novo, para o diferente, para as surpresas do Espírito.

Motivação

13.  O mundo vive uma grande crise provocada pela globalização neoliberal e por outras situações difíceis. No âmbito eclesial o momento atual caracteriza-se pela desconfiança, pelo desânimo. Muitas lideranças estão cansadas. Encontram-se na mesma situação dos Apóstolos: “Mestre, tentamos a noite inteira, e não pescamos nada…” (Lc 5,5). O lema do Ano Vocacional é um convite a acreditar na Palavra do Senhor e tentar mais uma vez, indo para frente, arriscando, ousando, sabendo que vale a pena, sob o impulso da Palavra, “lançar as redes”. As experiências vividas até agora devem suscitar em nós um dinamismo novo, que nos leve a investir, em iniciativas concretas em favor da humanidade, aquele entusiasmo que sentimos toda vez que ouvimos a Palavra de Jesus (NMI, 15).

14.  Considerando a dimensão vocacional da Igreja, isso significa estruturar o SAV em todas as dioceses e paróquias. Por meio dele será possível realizar, na comunidade eclesial, “uma reflexão mais atenta sobre os valores essenciais da vida, cuja síntese decisiva está na resposta que cada um é convidado a dar ao chamado de Deus, especialmente quando este pede a total doação de si mesmo e das próprias forças à causa do Reino” (NMI, 46).

15.  Além disso, o Ano Vocacional deseja incrementar ainda mais, em todas as Igrejas locais, o espírito de oração pelas vocações. Neste sentido, espera-se gerar uma nova mística e uma nova espiritualidade do seguimento, onde todos os batizados e batizadas possam ser perseverantes, dar testemunho de sua fé e viver a própria vocação na fidelidade, até que se atinja a plena maturidade em Cristo (cf. Ef 4,13).

16.  Portanto, a proposta do Ano Vocacional de 2003 quer ser bastante encorajadora. Ela deseja promover, em toda a Igreja no Brasil, um novo e promissor despertar vocacional, para que todos os cristãos e cristãs, a partir do compromisso batismal, assumam, na comunidade e nas diferentes realidades da sociedade, sua própria vocação e missão. Tudo isso para que não falte evangelizadores que anunciem com entusiasmo a Boa Notícia do Reino.


1. O ROSTO DA ANIMAÇÃO VOCACIONAL

A REALIDADE

 

“Certo dia, Jesus estava à beira do lago de Genesaré, e a multidão se comprimia

a seu redor para ouvir a Palavra de Deus. Ele viu dois barcos à beira do lago;

os pescadores tinham descido e lavavam as redes” (Lc 5,1-2)

 

1.1. Fazendo memória

17.  Antes do Concílio Vaticano II (1962-1965) a Animação Vocacional era caracterizada pela ênfase nas vocações sacerdotais. Aqui no Brasil se fazia junto ao povo uma intensa campanha de oração e de coleta de dinheiro para a sustentação dos seminários. Isso se dava especialmente através da “Obra das Vocações Sacerdotais” (OVS)6.

a) Os sopros do Espírito

18.  Mas os ventos do Espírito sopravam e, no meio dos cristãos leigos e leigas, surge a Ação Católica. Esta teve uma atuação muito significativa no Brasil, possibilitando inclusive o nascimento, em 1952, da própria CNBB, preparando assim o terreno para um momento de graça na história da Igreja em nosso país: a fase que se inicia com a realização do Vaticano II7. Foi o período do “planejamento pastoral” e da “pastoral orgânica”8. Naquela época se conseguiu uma verdadeira interação entre linhas comuns de ação para toda a Igreja no Brasil e os planos diocesanos de pastoral. Estes tentavam encarnar na realidade local as propostas mais amplas vindas do concílio e dos projetos pastorais, pensados no âmbito da CNBB, a partir do Vaticano II.

19.  O último Concílio conseguiu resgatar elementos teológicos importantes, abrindo espaço para uma verdadeira renovação eclesial. Entre esses elementos convém destacar a imagem significativa da Igreja “Povo de Deus”, a qual causou uma verdadeira revolução no conceito de vocação, na prática da animação vocacional e na consciência missionária dos cristãos e cristãs. Na América Latina a aplicação do Vaticano II se deu mais profundamente, graças às Conferência Gerais do episcopado latino-americano em Medellín (1968), em Puebla (1979) e em Santo Domingo (1992)9.

20.  A conferência de Puebla foi a que mais explicitamente tratou da temática da vocação e da missão, vendo-a na perspectiva da comunhão e da participação. Pelo Batismo e pela Crisma a Trindade nos chama a ser Povo, a viver em comunhão, a participar na missão e na vida da Igreja e a tomar parte ativa na transformação do mundo10. Toda a comunidade cristã é missionária e chamada, de maneira particular, a evangelizar os pobres e os jovens, os quais constituem a riqueza, a esperança e, por conseguinte, a prioridade da ação evangelizadora da Igreja11.

21.  Tudo isso infundiu um novo dinamismo na ação pastoral da Igreja no Brasil. Neste contexto, também o SAV passou por uma profunda transformação, tanto nos conteúdos quanto na sua prática. Começou a existir uma preocupação maior com a necessidade de desenvolver uma animação vocacional que contemplasse melhor a realidade brasileira e os seus múltiplos desafios. Sentiu-se que era preciso dinamizar melhor esta  animação vocacional, fazendo chegar a todas as dioceses e comunidades o interesse pelas vocações.

b) Novo dinamismo

22.  O período de consolidação dos novos rumos e da nova organização do SAV no Brasil culmina com uma mobilização geral feita através da realização do primeiro Ano Vocacional, acontecido em 1983, cujo objetivo era promover, em âmbito nacional, diocesano e paroquial a “conscientização e formação de vocações”12.

23.  Este primeiro Ano Vocacional contribuiu eficazmente para o aprofundamento e o amadurecimento da teologia da vocação e das vocações e das experiências de animação vocacional. O próprio Guia pedagógico, publicado naquela ocasião por solicitação dos bispos13, foi um subsídio valioso que ajudou na capacitação de um número imenso de animadores e animadoras vocacionais e na estruturação da PV na maioria das dioceses e paróquias.

24.  A partir disso, as iniciativas se multiplicaram. A questão vocacional no Brasil passou a ter prioridade e destaque, sobretudo com a celebração anual do mês vocacional (agosto) também solicitado pelos bispos na assembléia de 198114. O Setor Vocações e Ministérios passou por uma reestruturação contando também com a organização da PV nos Regionais. Incentivou-se a criação das Equipes Vocacionais nas dioceses e nas paróquias. Começou a ser definido o itinerário vocacional, inicialmente pensado em três etapas (despertar, discernir, acompanhar) e, mais tarde, acrescido da etapa do cultivo15.

25.  Por outro lado, mudanças aceleradas, ocorridas na sociedade brasileira, exigiram a revisão de muitos elementos da animação vocacional. Surgiram então os cursos vocacionais, as escolas vocacionais e a publicação da coleção “Cadernos Vocacionais”16, com a finalidade de preparar melhor as pessoas que iriam assumir serviços de animação vocacional.

26.  Passou-se então a assistir a um novo dinamismo do SAV. O Setor Vocações e Ministérios convocou então a Igreja no Brasil a refletir com seriedade sobre as questões emergentes e, ao mesmo tempo, estimulou diversas iniciativas. Entre as iniciativas, merece destaque a convocação das congregações e institutos de vida consagrada com carisma vocacional para somarem forças, em vista do serviço às vocações. Disto nasceu, em 15 de agosto de 1993, o Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), o qual vem prestando enormes serviços no campo da reflexão teológica, da assessoria aos cursos, da preparação e publicação de subsídios e da coordenação das escolas vocacionais. Nesta breve memória histórica não se poderia deixar de lembrar também a figura de Dom Joel Ivo Catapan, SVD, auxiliar de São Paulo, falecido a 1.º de maio de 1999, cognominado “o bispo das vocações”, grande dinamizador da pastoral vocacional no Brasil, pioneiro na iniciativa das escolas vocacionais e um dos principais articuladores da gestação e nascimento do IPV.

27.  Em termos de documentos eclesiais são significativos, entre tantos outros, as Diretrizes Básicas para a formação dos Presbíteros (1995)17 e aquele sobre a missão e os ministérios dos cristãos leigos e leigas (1999)18. Em 2002, durante a 40.ª Assembléia Geral da CNBB, os bispos aprovaram as Diretrizes para o Diaconado Permanente, as quais entrarão em vigor logo após a aprovação da Santa Sé.

28.  De 23 a 27 de maio de 1994, em Itaici, aconteceu o 1.º Congresso Continental Latino-americano de Vocações, abordando o tema: “A Pastoral Vocacional no Continente da Esperança”. A partir dele nasceu a idéia de se realizar o 1.º Congresso Vocacional do Brasil, celebrado depois no período de 2 a 5 de setembro de 1999. Chamado a refletir sobre as vocações e os ministérios, no contexto do novo milênio que estava para se iniciar, este Congresso foi o primeiro a reunir um grande número de animadores vocacionais provenientes de todas as dioceses do país. Com o seu lema “Coragem. Levanta-te, Ele te chama!” (Mc 10,49b), provocou um grande entusiasmo vocacional e sugeriu pistas bastante significativas para o futuro da animação vocacional no Brasil19.

1.2. Vendo o presente: pesquisa vocacional nos regionais

29.  Mas diversos desafios ainda permanecem, levando muitos animadores e animadoras vocacionais a pedir um outro Ano Vocacional, idéia felizmente acolhida e aprovada pelos nossos bispos. O Setor Vocações e Ministérios, durante o ano de 2001, através do Grupo de Assessoria Vocacional, em parceria com o Instituto de Pastoral Vocacional, fez um levantamento, em forma de pesquisa, sobre a aplicação dos resultados do 1.º Congresso Vocacional do Brasil. Em vista do Ano Vocacional, faz-se importante destacar agora uma série de elementos desta pesquisa, para que as iniciativas e atividades venham enriquecer o processo já em andamento.

a) As respostas dos regionais e dioceses

30.  O questionário foi enviado primeiramente às dioceses. Posteriormente  foi solicitada a síntese pelas Coordenações Regionais. Dos regionais existentes, nove responderam (52,05%). Mas, se tomarmos o número de circunscrições eclesiásticas (dioceses e prelazias) existentes no Brasil, das 263 apenas 58 responderam, ou seja 22,05%. Todavia, mesmo considerando a fragilidade do resultado dos dados, pode-se comprovar que a acolhida e estudo do documento final foram muito expressivas (83,02%), o que significa que ele chegou até as bases, houve alguma forma de  aprofundamento e atingiu os seus objetivos (ver tabela 01):

 

31.  Quanto aos efeitos e à repercussão se pode dizer, de forma objetiva, que houve praticamente uma unanimidade sobre a importância do 1.º Congresso Vocacional para a nova consciência e a nova dinamização da animação vocacional. Ele reforçou a dimensão vocacional das pastorais, a compreensão teológica da vocação; ajudou a ver  a importância da formação dos animadores vocacionais; chamou a atenção para a questão da ministerialidade da Igreja; deu impulso para um serviço mais organizado, melhor coordenado e articulado; contribuiu para a reestruturação da PV em muitas dioceses, deixando clara a prioridade do SAV.

b) O rosto da animação vocacional

32.  O questionário da pesquisa procurou delinear o rosto da animação vocacional no Brasil20. Os traços apresentados puderam ser sintetizados da seguinte forma:

33. Com relação à ministerialidade da Igreja, as respostas sublinharam o valor do batismo, a necessidade e a importância dos ministérios, a consolidação do protagonismo dos cristãos leigos e leigas, a necessidade de uma igreja toda ministerial, a responsabilidade de toda a comunidade pelas vocações.

34.  No tocante à inculturação, evidenciou-se a urgência de uma evangelização inculturada, o respeito às culturas e à cultura dos vocacionados e vocacionadas, o surgimento de novos ministérios, a estruturação de uma animação vocacional mais situada e mais localizada.

35.  No que diz respeito à pessoa, foi destacada a necessidade de um SAV mais personalizado que resgate a dimensão humana, o valor da liberdade e a maturidade da fé e da experiência de Deus.

36.  Quanto ao tema da cultura urbana, mesmo já havendo o crescimento da reflexão, a abertura à realidade da  cidade e uma preocupação cada vez maior com a questão, apareceu um  desafio a ser assumido: uma melhor compreensão e um aprofundamento do fenômeno da urbanização.

37.  Mesmo assim, das respostas se depreende que o novo rosto da animação vocacional já começa a ter raízes culturais próprias, aberto aos sinais dos tempos, tendo a vida como valor fundamental. Nota-se que já existe uma fisionomia mais ministerial e missionária,  articulada com a pastoral orgânica, integrada com as demais pastorais,  inserida na cultura urbana e acolhedora da pluralidade das vocações e da riqueza de ministérios, incluindo a participação dos cristãos leigos e leigas.

c) Temas a serem aprofundados

38.  O questionário permitiu ainda estabelecer uma ordem de prioridades em relação aos temas que necessitam de aprofundamento21. Olhando a síntese final pode-se afirmar que, praticamente, não existem divergências entre os Regionais. Os temas mais  indicados foram: a  teologia da vocação e da pastoral vocacional (11,24%), a integração da pastoral vocacional com as pastorais afins (9,98%), a formação dos vocacionados (8,29%). Família, mística e espiritualidade, juventude e catequese vieram a seguir. Veja, na tabela 02, os outros temas a serem aprofundados:

 

39.  Isso vem apenas confirmar a tendência já presente no 1.º Congresso Vocacional e aqui melhor explicitada. A teologia da vocação e da animação vocacional, a interação desta última com as pastorais (especialmente a catequese, a juventude e a família), a formação dos vocacionados, a mística e a espiritualidade estão no centro da atenção e são referenciais para um SAV que pretenda ser amplo, eclesial e ministerial.

40.  É importante notar ainda que, na seqüência dos temas, aparecem as questões de gênero, celibato e castidade (5,46%). Estes são desafios a serem enfrentados com urgência. Existe também uma série de outros temas que denotam preocupações locais, não menos importantes: as vocações indígenas, pastorais e movimentos, psicologia da vocação e o diálogo inter-religioso.

d) Novas questões

41.  Como novas questões poderiam ser destacadas: a) as vocações adultas; b) a animação vocacional e realidade das paróquias; c) os novos paradigmas sociais; d) animação vocacional e sexualidade do clero; e) animação vocacional e questões antropológicas; f) as vocações indígenas e itinerário vocacional inculturado; g) formação permanente  das equipes vocacionais; h) animação vocacional  e cultura midiática. Evidentemente estes temas indicam uma clara e objetiva percepção do que se haverá de incluir e aprofundar a partir de agora.

e) Desafios

42.  O questionário identificou também os maiores desafios22 para a animação vocacional. Em percentuais, o resultado indica, por ordem decrescente: 1) a afetividade e a sexualidade dos vocacionados e vocacionadas (16,48%); 2) a organização e articulação da pastoral vocacional  (16,28); 3) a formação dos animadores e animadoras (15,11%). O tripé mínimo do SAV aqui apresentado é, sem dúvida, o seguinte: a) a pessoa do vocacionado(a) e a integração de sua afetividade e sexualidade; b) o(a) animador(a) vocacional e sua formação23; c) a organização e articulação da PV.  Outros desafios apontados foram: o itinerário vocacional (10,7%), a ação dos movimentos eclesiais (7,71%) e a mística inculturada (7,58%). Veja, na tabela 03, todos os resultados:

 

43.  Quanto às causas dos problemas indicados, os Regionais se posicionaram de forma bastante diversificada. Entre as principais estão: a) a crise da liberdade; b) a falta de clareza na opção vocacional; c) o escasso investimento na preparação dos animadores e animadoras; d) a pouca preocupação quanto à formação humano-afetiva dos  animadores e animadoras; e) a inexistência, em muitas dioceses, de uma animação vocacional mais articulada e mais organizada.

f) Pistas de ação

44.  Com relação às pistas de ação, o questionário teve por objetivo verificar até que ponto as propostas operativas do 1.º Congresso Vocacional já tinham sido assumidas e incorporadas e quais permaneciam ainda como metas (na tabela 04, pág. 22, a visão geral das respostas). Quanto às dimensões eclesiais e formação dos animadores (tabela 4.1), foram assumidas: 1) apoio aos ministérios dos cristãos leigos e leigas (74,80%); 2) estruturação do SAV (57,79%); 3) aumento da consciência e da mentalidade vocacional (49,32%). Permanecem ainda como metas: a) a inculturação em relação às etnias (73,37%); b) a formação dos animadores a animadoras, preparando-os para o diálogo com a cultura urbana (66,49%); c) o aprofundamento da teologia da missão (62%). Acerca da presença da teologia da vocação no currículo das escolas teológicas, 59,38% das respostas dizem que ainda permanece como meta a inclusão desta disciplina nos programas das instituições formativas da Igreja (cf. tabela 4.4).

Entre parênteses está a referência ao Documento do Congresso Vocacional do Brasil

 

45.  A forma como tem acontecido a aplicação das propostas é bastante diversificada, incluindo encontros vocacionais, reuniões diocesanas, formação e acompanhamento das Equipes Vocacionais Paroquiais, interação com o Projeto “Ser Igreja no Novo Milênio” e com os movimentos, pastorais, conselhos de leigos, grupos de vocacionados e assim por diante. Vale destacar que a incorporação da animação vocacional na dinâmica evangelizadora das Igrejas locais e seus projetos, incluindo os conselhos de leigos, indicam certamente um avanço.

46.  No que diz respeito à organização e às etapas do processo vocacional (tabela 4.2), os dados também foram muito interessantes e ilustrativos. Na seqüência temos: a) o despertar para a animação vocacional desde as etapas iniciais (71,69%); b) o acompanhamento personalizado e grupal dos vocacionados e vocacionadas (55,22%); c) a formação das equipes vocacionais para o acompanhamento (46,73%). Como metas permanecem o envolvimento da comunidade no discernimento vocacional (59,30%) e a formação das equipes vocacionais para o acompanhamento (47,94%).

 

47.  A pesquisa mostrou que o modo de fazer o despertar vocacional é variado: 1) estudos e encontros de formação; 2) retiros e semanas vocacionais; 3) sensibilização do clero; 4) visitas aos vocacionados e suas famílias; 5) fortalecimento das Equipes Vocacionais  e sua participação no processo formativo, através de subsídios e utilização do material existente; 6) celebrações, vigílias, grupos de oração pelas vocações; 7) plantões e atendimento vocacional; 8) cultura da co-responsabilidade no acompanhamento e discernimento. Todavia, têm-se a impressão de que não há muita novidade. Continua a se fazer as mesmas coisas e sempre do mesmo jeito!

48.  Quanto à integração da PV com outras pastorais, os dados foram bastante indicativos do que já se avançou e das áreas que ainda permanecem descobertas (tabela 4.3). Considerou-se como avanços: a) a dimensão vocacional do Ano Litúrgico (61,66%); b) a interação com as pastorais afins: a Juventude, a Família e a Catequese (53,23%); c) a utilização dos espaços nos meios de comunicação (45,09%); d) a interação com a Educação (31,10%).  Ao contrário, permanecem ainda como metas e como desafios: 1) a animação vocacional no meio universitário (64,11%); 2) a pastoral do adolescente (62,86%); 3) o despertar vocacional na família (60,68%); 4) a interação da animação vocacional com a política (59,21%).

49.  Com relação aos serviços e recursos, os resultados indicaram metas que ainda devem ser alcançadas e poucas em execução (tabela 4.4). A animação vocacional através da Internet ainda é insignificante (7,77%). A falta de utilização deste recurso na animação vocacional é assinalada por 63,10% das respostas. O mesmo acontece em relação ao investimento financeiro no orçamento da diocese,  embora com um índice melhor (29,66%). A maioria (51,76%) disse que é preciso investir mais na animação vocacional.

50.  O modo de buscar e utilizar recursos é variado: 1) ajuda das dioceses e das paróquias; 2) ajuda pessoal dos bispos; 3) doações e promoções pelas equipes vocacionais; 4) ajuda financeira externa; 5) recursos provenientes do orçamento e do planejamento anual das Igrejas locais; 6) recursos próprios das equipes; 7) promoção da animação vocacional através do site da diocese; 7) criação da secretaria do SAV  e do centro vocacional diocesano.

 

g) Parecer global

51.  A pesquisa, tendo presente o objetivo do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, que foi o de revitalizar o SAV, solicitava um parecer global, sintético e objetivo sobre algumas questões. A constatação mais comum foi a que considerou o Congresso um verdadeiro tempo de graça (kairós) para a animação vocacional no Brasil. Grandes avanços estariam acontecendo: a) um rosto mais encarnado da animação vocacional; b) crescimento da consciência vocacional da Igreja e maior participação dos cristãos leigos e leigas; c) melhor organização, formação ou reestruturação das equipes vocacionais; d) melhor acolhida do itinerário vocacional; e) interação com outras pastorais e melhor organização da PV.

52.  Outros aspectos evidenciados foram: a) a participação do clero diocesano na animação vocacional; b) maior cooperação dos superiores de institutos de vida consagrada e de bispos na efetivação das conclusões do Congresso, incluindo aqui a disponibilidade de recursos financeiros; c) a descentralização do poder; d) a desclericalização da animação vocacional; e) a liberação de assessores. Foi significativo o pedido para que a teologia da vocação integre os currículos  de teologia e da formação para a vida consagrada, bem como a solicitação da criação de uma cultura vocacional nas comunidades religiosas.

53.  Como perspectiva para os próximos anos, as respostas da pesquisa sugeriram a elaboração de um plano ou de um guia para os animadores e animadoras vocacionais, a inserção do SAV no projeto diocesano de pastoral e a insistência para que a animação vocacional se torne uma prioridade nacional. Uma outra indicação refere-se ao Ano Vocacional (2003) e ao 2.º Congresso Vocacional (2005). Esses eventos são tidos como providenciais e enriquecedores.

 

A pesquisa sobre o Congresso Vocacional do Brasil possibilitou verificar quais as pistas de ação indicadas em seu Documento Final (por isso os números entre parânteses) que foram assumidas ou concretizadas – já – e quais as pistas que permanecem como metas ou desafios – ainda não. Um dado importante, que não se pode desprezar, é a coluna das “omissões” – branco – revelando as três pistas de ação com maior índice de “não-resposta”: a) Teologia da Vocação e ministérios no currículo escolar (40,62%); b) integração entre os institutos de vida consagrada e as instâncias pastorais das Igrejas locais (36,94%); c) interação entre PV e política (36,48%). Leia a análise completa sobre as pistas de ação na página 19.

1.3. Fazer animação vocacional a partir da realidade 

54.  A reflexão em torno dos dados da pesquisa de 2001 quer nos ajudar a perceber que a animação vocacional só pode ser feita a partir da realidade. Aliás, todo trabalho de evangelização que não considera o “rosto” concreto das pessoas, ou seja, o contexto onde vai se dar o anúncio, corre o sério risco de não ser bem acolhido. Essa exigência não é motivada apenas pela necessidade de termos um processo pedagógico e uma metodologia mais próxima das pessoas com as quais vamos dialogar. Ela é provocada sobretudo pela convicção de que o cristianismo, enquanto seguimento de Jesus, não propõe uma verdade abstrata nem apenas uma doutrina, mas o seguimento de Alguém que caminha conosco, mesmo que, às vezes, nossos olhos não o reconheçam24. Neste sentido, se queremos fazer uma animação vocacional capaz de perceber a presença de Jesus em nosso meio, temos que voltar mais atentamente o nosso olhar para o mundo no qual vivemos.

a) O mundo em que vivemos

55.  O nosso mundo se caracteriza atualmente pelo fenômeno da globalização neoliberal do mercado, a qual gera um novo tipo de totalitarismo, ao pretender que todos os povos estejam a serviço do capital financeiro. Seu projeto é a mundialização do mercado que, em nome da liberdade irrestrita de produzir, vender e comprar, coloca o lucro acima da vida25. A conseqüência mais visível da globalização é o fato de ser um sistema excludente. Para chegar onde pretende, a globalização neoliberal precisa excluir quem não se integra dentro das regras do mercado, seja porque produz mercadoria lucrativa, seja porque não tem capacidade econômica para se tornar consumidor26.

56.  A globalização, entendida como “o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista”27, torna-se possível devido à interação entre tecnologia e informação28. Ela produz eficiência econômica, mas subordina as demais esferas do humano, inclusive a própria vida em si, às normas do econômico. Enquanto sistema excludente, a globalização difunde a insensibilidade, levando as pessoas a se tornarem indiferentes diante dos problemas e dos sofrimentos dos demais seres humanos. Passa a vigorar a lei da concorrência, obrigando o indivíduo a pensar antes em si mesmo e ver no outro o concorrente a ser derrotado. A  falta de sensibilidade, por sua vez, costuma fazer-se acompanhar do cinismo, do desprezo e do preconceito contra aqueles que reclamam da situação, tentam sobreviver e lutam por um espaço na sociedade29.

57.  Ao colocar o econômico em primeiro lugar, a globalização neoliberal se revela como um sistema que provoca uma crise muito forte da dimensão espiritual. Ela conduz a um estilo de vida onde os valores não vão além do cotidiano, do banal e do imediato. Junto com esta crise de espiritualidade aparece a falta de ética, ou, se quisermos, a ética utilitarista. Tudo é lícito, tudo é permitido, desde que sejam respeitadas as regras do mercado: o direito irrestrito à propriedade, a liberdade de vender e comprar, e o cumprimento dos contratos. Atribuindo “um papel central ao dinheiro nas suas diferentes manifestações”30, a globalização neoliberal incentiva a competição e o consumo, truncando todas as formas de solidariedade. Faz as pessoas voltarem-se para si mesmas, para os próprios interesses, estimulando o cultivo do individualismo arrebatador e possessivo. Consequentemente há um desinteresse pela coisa pública e a cidadania não ocupa mais espaço na vida dos membros de uma comunidade. Neste contexto é que deve ser visto o processo de implantação da ALCA31, a qual não é apenas um acordo comercial para eliminar barreiras comerciais, mas um verdadeiro plano estratégico das empresas norte-americanas para tentar impor seus interesses a todo o continente.

 

b) A situação do Brasil

58.  No Brasil as conseqüências da globalização neoliberal são visíveis. Lembramos aqui apenas algumas delas32. Antes de mais nada temos a “financeirização da economia”. Ao invés de produzir, investe-se cada vez mais no mercado financeiro. Desta forma, grande volume de recursos é desviado da área social para o pagamento aos credores internacionais. Assim, setores como a saúde, a educação, a moradia, o transporte público, ficam cada vez mais desprotegidos. Isso favorece a concentração da renda nas mãos de uma elite sempre mais rica, acirrando ainda mais a desigualdade entre as camadas da população, formando um verdadeiro “apartheid social”. Como expressão visível desta realidade temos atualmente o drama de dezenas de milhões de brasileiros vítimas da fome, sem renda suficiente para comprar a comida necessária e que o mercado oferece33.

59.  A animação vocacional terá que considerar essa questão da globalização neoliberal. Em primeiro lugar porque esta é imoral. E não encarar esse desafio com seriedade significa compartilhar de uma inversão ética incompatível com o Evangelho. Além do mais, a globalização interfere profundamente na dinâmica do itinerário vocacional, particularmente no que diz respeito ao discernimento34. Gera, entre outras coisas, o individualismo exacerbado, a arrogância e a pretensão de eficiência; favorece o espírito de concorrência, a sensação de incompetência e de irresponsabilidade coletiva. Ela tem o padrão de consumo como critério central de construção da identidade pessoal e grupal35. Tende a desvalorizar a cultura local e a ver o pobre, aquele que não tem, como não-pessoa. Todas essas coisas criam sérias dificuldades para a opção vocacional.

c) Um mundo novo é possível

60.  A situação do mundo e do Brasil é grave. Mas observadores atentos dizem que há uma transição em marcha36, permitindo-nos sonhar e participar da construção de uma realidade nova. Diante da ditadura hegemônica do capital começam a surgir reações significativas às imposições do mercado. Há, mesmo que ainda de forma bem sutil, um movimento mundial que insiste em lutar para que a centralidade ocupada pelo dinheiro seja substituída pela prevalência da pessoa humana37. Tal movimento está nascendo na periferia do mundo, fazendo ressurgir um certo dinamismo dos países mais pobres, ganhando, cada dia mais, a simpatia de pessoas e instituições dos países mais ricos. De certa forma percebe-se a pertinência da utopia, fazendo-nos crer que o  atual fenômeno da globalização neoliberal não é irreversível, que é possível globalizar a solidariedade. A isso vem se juntar o esforço para implementar outras formas possíveis das técnicas atuais, favorecendo a vida humana, a solidariedade e a preservação do planeta.

61.  Aqui em nosso país vemos crescer a atuação de novos atores sociais, conscientes da responsabilidade que têm “como cidadãos protagonistas de um mundo novo”38. O povo continua firme na luta pela sobrevivência, criando alternativas para responder aos desafios e às necessidades39. Muitas destas iniciativas sociais têm contado com o incentivo e a participação das comunidades cristãs ou de grupos de cristãos40. A Igreja Católica freqüentemente lança ou apoia iniciativas, visando a eliminação de tantos dramas que atormentam boa parte da nação brasileira41.

62.  Toda vocação é um chamado à vida. A animação vocacional, enquanto dimensão essencial da Igreja e da sua missão evangelizadora, precisa engajar-se plenamente neste movimento em favor de um outro mundo. Essa participação decorre antes de tudo da consciência de que os cristãos, “de acordo com a vocação à qual cada um foi chamado” (GS, 43), são vocacionados a tomar parte ativa na construção de uma nova civilização. A resposta ao chamado divino, a um tipo de vocação específica na Igreja, acontece sobre o alicerce de uma vida em plenitude. A partir desta perspectiva, deve-se encarar como natural e como atividade da animação vocacional a formação para o exercício pleno da cidadania42.

d) O SAV situado em uma realidade urbana   

63.  Após estas considerações sobre a situação mundial e nacional, convém agora voltar o nosso olhar para um outro aspecto da realidade do nosso país: o fenômeno da urbanização43. Trata-se da existência de um processo acelerado de mudanças culturais, onde o urbano determina o ritmo da vida, inclusive daquelas pessoas que estão no campo. Essas mudanças são difundidas de forma rápida pela influência da tecnologia, da mídia e da informática, as quais chegam com muita velocidade aos lugares mais distantes do nosso país44. Por isso, no âmbito do SAV, insiste-se sobre a urgência de  “uma pastoral vocacional atenta à cultura urbana, englobando as questões sociais e as da pós-modernidade”45.

64.  Neste sentido, a problemática não gira tanto em torno da localização da população, mas da convicção generalizada de que continuamos a utilizar “uma linguagem rural nos centros urbanos”46, incapaz de ser compreendida até mesmo por quem ainda está morando no campo. Neste momento o desafio maior para o SAV é encontrar “um processo de inculturação mais adequado à juventude, destacando a questão da linguagem, dos símbolos, dos paradigmas e da comunicação dos animadores e animadoras”47. Formar e preparar bem os animadores e animadoras vocacionais “para o diálogo com a cultura urbana, buscando conhecer melhor os valores da cidade”48.

 
1.4. Lendo a história da PV e a pesquisa

65.  Após estas considerações sobre a realidade, importa agora fazermos uma leitura de alguns elementos apontados tanto pela história como pela pesquisa realizada. Nesta leitura será possível identificar algumas luzes e algumas questões emergentes que deverão estar entre as principais preocupações da  animação vocacional.

a) As luzes

66.  As luzes49 podem ser consideradas como experiências vividas e que estão contribuindo para dar um rosto novo ao serviço de animação vocacional. A primeira delas, mais eclesial, é a ministerialidade da Igreja. Esta, sem dúvida, é uma experiência rica e bastante significativa. Uma Igreja que se coloca no mundo com o único compromisso: servir. O Vaticano II, Medellín, Puebla, criaram em nosso meio um clima de comunidade cristã “toda ministerial”, mais evangélica, “inteiramente voltada para o serviço, onde “todos os cristãos são chamados a participar ativamente da missão da Igreja”, numa “atitude de serviço humilde, como a de Cristo”50. A urgência de uma Igreja aberta à diversidade de ministérios foi reafirmada mais recentemente no 15.º Encontro Nacional de Pastoral Vocacional51.

67.  A segunda luz, fruto deste clima, é a necessidade de caminharmos juntos “expressando a comunhão e co-responsabilidade nos diferentes serviços e ministérios”52. Este apelo, no sentido de encarar a vocação como chamado para a “comunhão e participação”53, não pode ser deixado de lado. Cabe ao SAV deste início de milênio educar os vocacionados e vocacionadas para a vida de comunhão e de participação. Trata-se de “ressaltar igualmente o caráter colegial dos ministérios, evitando as tentações de personalismo e autoritarismo, que dividem a comunidade em lugar de edificá-la”54.

68.  Além dessas duas luzes, há outras que precisam ser ressaltadas durante o Ano Vocacional. Em primeiro lugar a consciência “de que todos somos animadores vocacionais”55. Como afirmou João Paulo II, é urgente “que se difunda e se radique a convicção de que todos os membros da Igreja, sem exceção, tem  a graça e a responsabilidade do cuidado pelas vocações” (PDV, 41). Em segundo lugar, deve ser apontado aquilo que se poderia chamar de aumento da “catolicidade” do SAV, ou seja, a realização de uma animação vocacional voltada para a promoção de todas as vocações. Considera-se como muito positivo a superação da concepção de PV apenas como “recrutamento” de candidatos para os seminários diocesanos e para as casas religiosas.

69.  Constata-se um grande avanço na eclesialidade da PV. Puebla afirmou que a animação vocacional visa “impulsionar, coordenar e ajudar a promoção e amadurecimento de todas as vocações” (P, 881). A CNBB, por ocasião do primeiro Ano Vocacional (1983), insistiu para que a animação vocacional suscitasse vocações “de serviço ao Reino”56. O fortalecimento dessa mentalidade ajuda a vencer a possível tentação de confundir animação vocacional com a pura e simples “Obra das Vocações Sacerdotais” 57. Embora se deva continuar com a preocupação de suscitar mais vocações presbiterais, é importante não deixar de lado todas as demais.

70.  Um terceiro elemento positivo a ser dinamizado é a multiplicação, de forma bastante criativa e diversificada, de “subsídios, encontros, cursos e escolas vocacionais, grupos de vivência e de experiência missionária”58. Nos anos que se seguiram ao Vaticano II conseguimos transformar a animação vocacional num verdadeiro “laboratório” de idéias e de iniciativas valiosas59. Num mundo acelerado, que tem pressa, a animação vocacional precisa continuar com essa fecundidade, com muita criatividade, buscando novas alternativas para a sua missão na Igreja e na sociedade60.

71.  E por fim, um ganho para o SAV foi o fato de muitos cristãos leigos e as leigas terem “assumido, com entusiasmo, sua missão de animadores vocacionais”61. Isso tem contribuído para a revitalização da atividade vocacional e para o seu dinamismo. O 2.º Congresso Internacional das Vocações, realizado em Roma no ano de 1981, chamava a atenção para o fato de que os cristãos leigos, com o “exemplo de vida, a seriedade profissional, a ação apostólica terão um reflexo favorável em muitas pessoas, especialmente entre os jovens, mesmo no que se refere às opções consagradas ao serviço da comunidade”62.

72.  Não se pode deixar de lembrar que a pesquisa evidenciou a ausência de uma teologia do Batismo, base de sustentação da consciência vocacional da Igreja, do impulso para vivermos o chamado universal à santidade63. Da vocação batismal nascem todas as outras vocações, os ministérios e os serviços, sem os quais não há comunidade eclesial verdadeira. Por fim, se há de lembrar a insistência com a qual os resultados da pesquisa falaram da questão da sexualidade e da afetividade dos vocacionados. Os fatos recentes, envolvendo alguns presbíteros, mostram que esta questão precisa ser tratada com mais seriedade pelos que estão comprometidos com a animação vocacional64.

b) Questões emergentes

73.  A experiência nos ajuda a perceber “que ainda há muitas sombras que atrapalham a caminhada”65. Antes de tudo o problema da falta de uma pastoral orgânica, de linhas e de ações comuns, dando margem para que cada um faça o que quer, criando uma grande confusão. Uma outra sombra é a falta de testemunho. Nos encontros, congressos, reuniões, simpósios, assembléias esta questão volta inúmeras vezes. Isso é extremamente grave e não pode ser deixado de lado. Algo tem que ser feito, uma vez que se trata da porta de entrada, da regra de ouro de todo verdadeiro SAV (VC, 64). O Ano Vocacional deve se tornar uma ocasião propícia para buscar uma avaliação deste fenômeno, que certamente está relacionado com tantos outros.

74.  Algo que também é levantado e questionado com muita freqüência é o fato de que a mulher “não é suficientemente valorizada na Igreja e nem reconhecida pela contribuição que oferece”66. Num mundo em que, a cada instante, vai se firmando o repúdio contra toda e qualquer discriminação da mulher, a animação vocacional é convidada a rever tal situação. Ultimamente isso tem se agravado ainda mais devido ao crescente autoritarismo de alguns ministros ordenados. O mais angustiante é que se constata o problema, mas falta-nos coragem para assumir posturas mais coerentes67.

75.  Portanto, a pergunta de fundo, que precisa ser feita com muita humildade, mas também com bastante coragem, é se as mulheres, pelo simples fato de serem mulheres, não são chamadas por Deus para diversos serviços e ministérios na Igreja. E o que está por detrás deste questionamento é a certeza de que “a vocação para o ofício não é opção de alguns cristãos ou de algumas cristãs, mas constitui parte essencial da existência cristã, que busca adquirir forma como participação no serviço de Cristo”68.

76.  Na esteira do que foi dito, relembramos alguns entraves revelados pela realidade, destacados em muitas ocasiões. São eles: a) o clericalismo; b) a falta de profecia na Igreja; c) o “proselitismo vocacional”69 de algumas congregações, dioceses e movimentos; d) a falta de preocupação com a qualidade; e) formação distante da realidade; f) a fragilidade da experiência cristã de muitos jovens, especialmente os que chegam dos movimentos; g) a sobrecarga e o despreparo dos animadores e animadoras vocacionais; h) a falta de adultos (cristãos leigos e leigas, da vida consagrada e do clero) preparados para o acompanhamento aos grupos de jovens70. Estas questões pedem respostas imediatas, inadiáveis. Parece ficar cada vez mais clara a urgência de uma evangelização inculturada. Além disso, precisamos repensar o verdadeiro lugar do ministério ordenado na dinâmica de uma Igreja chamada a ser toda ministerial, servidora da humanidade, onde cada membro ocupa o seu espaço específico. Além do espaço específico desses ministérios, faz-se necessário encontrar o jeito mais evangélico do seu exercício. Como se vê, são coisas muito sérias, uma vez que a experiência está demonstrando que elas emperram a realização de uma animação vocacional mais de acordo com o projeto do Reino, sob a luz do seguimento de Jesus.

77.  Cabe à animação vocacional contribuir para o surgimento de um estilo de vida cristã que esteja sempre mais afinado com a proposta do Evangelho. Uma vez que a dimensão vocacional da Igreja é responsável pelo surgimento e preparação dos futuros evangelizadores, toca-nos o dever de insistir nesta direção, jamais desistindo daquilo em que acreditamos. É também uma questão de fé e de esperança: saber que a semente lançada vai dar frutos um dia (cf. Hb 10,35-36). Por fim, num contexto onde a miséria e a fome ceifam diariamente milhares de vida, a nossa animação vocacional deve ser capaz de gerar vida. Não devemos recuar diante das dificuldades e dos sofrimentos, pois sabemos que nenhum mal, por maior que seja, irá nos vencer71. Precisamos, pois, avançar “para águas mais profundas” (Lc 5,4).

 

PROPOSTAS PARA A EQUIPE VOCACIONAL LOCAL

1.   Realizar com a comunidade (paróquia e/ou diocese) um estudo de todo o texto-base. Esse estudo, se possível, seja feito antes da abertura do Ano Vocacional (12 de janeiro de 2003).

2.   Em seguida, considerando apenas a primeira parte do texto-base, tomar conhecimento da situação real da comunidade (contexto sócio-político-econômico, vida eclesial, animação vocacional). Ver quais são as luzes e as principais dificuldades. Conversar bastante sobre isso. Decidir o que é do consenso de todos.

3.   A partir dos dados obtidos, elaborar um grande painel com um rosto humano, no qual se possa colocar esses dados. No final da celebração de abertura do Ano Vocacional (12 de janeiro de 2003), afixar este painel em um lugar bem visível, explicando para toda a comunidade o que ele significa.

4.   Colocar junto ao painel uma caixa, pedindo às pessoas da comunidade que acrescentem outras luzes e dificuldades.

5.   Antes do início da Campanha da Fraternidade, reunir a equipe vocacional e conversar novamente sobre os acréscimos feitos pelas pessoas da comunidade.

6.   Acrescentar ao painel as sugestões da comunidade. Na Quarta-feira de Cinzas colocar o cartaz da CF-2003 no painel vocacional, incentivando a participação de todas as pessoas na Campanha da Fraternidade, comprometendo-se com a grande vocação à vida.

 


2. NOVOS TEMPOS PARA A ANIMAÇÃO

VOCACIONAL

REFLEXÃO BÍBLICA A PARTIR DA REALIDADE

 

“Sentado, desde o barco, ensinava as multidões” (Lc 5,3b)

 

 

78.  Considerando o rosto atual da animação vocacional no Brasil, queremos agora buscar algumas luzes que nos ajudem a ver melhor os avanços que fizemos e ainda precisamos fazer. Isso será feito a partir da releitura vocacional da Bíblia e do ensinamento do concílio Vaticano II. 

 

2.1. Jesus, vocacionado do Pai, nas águas do Jordão72

79.  Comecemos olhando para o próprio Cristo, lembrando a cena simples, profundamente significativa, descrita pelo evangelista Marcos: Jesus veio de Nazaré da Galiléia e foi batizado…(Mc 1,9). Jesus proclama e difunde a Boa Nova do Reino não somente por meio de palavras, mas sobretudo por meio de suas ações (Mt 4,23-25), de forma que nele pode se verificar a existência de uma unidade profunda entre o falar e o agir. Suas palavras agem tanto quanto seus atos e seus atos falam tanto quanto suas palavras. De fato ele, desde o começo, fez e ensinou(At 1,1), fez o bem a todos (At 10,38).

a) O batismo de Jesus

80.  Pelas suas ações, bem como pelas suas palavras, Jesus revelou-nos, desde o início, a sua identidade, a sua autoridade e a sua missão. A cena do seu batismo, acontecido à margem do rio Jordão, no início da sua vida pública, se inscreve bem dentro desta perspectiva. É que, na verdade, trata-se de uma cena muito simples, que chegou a nós através de um escrito muito sintético. Apesar de toda esta sobriedade, trata-se de uma ação simbólica e profética muito rica em conteúdo teológico para um trabalho de animação vocacional.

81.  Jesus, recebendo um batismo destinado a pecadores em processo de conversão, com este seu gesto se solidariza com eles e manifesta a sua firme decisão de não mais se separar deles. Seu batismo é uma espécie de batismo da humanidade e antecipação da sua paixão redentora73. E isto vai servir de referencial para toda a sua vida, inclusive para a sua morte. Por ele haverá de viver, morrer e ressurgir (cf. Lc 12,50). Jesus aderiu tão fortemente ao batismo de João que abandona a sua casa e a sua profissão e começa a anunciar o Reino de Deus (Mc 1,14-15). Levou-o tão a sério a ponto de, mais tarde, também batizar (Jo 3,22; 4,1-2) e mandar os seus discípulos fazerem a mesma coisa (Mt 28,19). Em Jesus a sua ação precede a exigência de se realizar o que ele fez e ensinou.

82.  Tu és meu Filho amado; em ti está o meu agrado (Mc 1,9). O batismo cristão, e seu efeito salvífico, tem raízes no batismo de Jesus74. É esta mesma realidade teológica que se concretiza no dia a dia de cada batizado. Todo aquele que, como Jesus, é submergido nas águas batismais, é também chamado de “filho amado”, ungido pelo Espírito e enviado a cumprir atos de justiça. O batismo de Jesus revela a existência de três elementos que são fundamentais para o batismo cristão. Primeiro, a sua própria vinda, de Nazaré ao Jordão, é um sinal indicativo do seu chamado a salvar a humanidade: Jesus veio…”, livremente. Em segundo lugar, a voz vinda do alto – sinal de que Deus volta a falar – é um indicativo da sua divindade e identidade vocacional: Jesus é o Filho Amado de Deus. Por fim, o terceiro elemento é sinal indicativo da sua autoridade: nele está o meu agrado”, porque executará o projeto de Deus75.

83.  O batismo faz de Jesus o vocacionado por excelência do Pai. E doravante vai ser, viver e agir em conformidade com aquilo que lhe é próprio, como Filho de Deus e Salvador. Nele a humanidade é chamada à santidade, a criar uma identidade vocacional e a assumir uma missão. Como o batismo de Jesus no Jordão representou o início da sua missão profética, para a revelação da sua divindade e identidade, da sua autoridade e da sua missão salvífica, assim o batismo cristão é a fonte e a origem de todas as vocações76.

b) O nosso batismo

84.  O nosso batismo, sendo o ato litúrgico de iniciação no cristianismo, é também um ato pelo qual somos incorporados e configurados a Jesus Cristo. Pelo mergulho na fonte batismal os homens e as mulheres são sepultados com Cristo na sua morte para serem pessoas ressuscitadas, plenas de vida (cf. Rm 6,1-11). Pela água da fonte batismal as pessoas são enxertadas em Cristo (cf. Rm 6,3), inseridas no seu Corpo (cf. 1Cor 12,13) para, na diversidade de carismas (cf. 1Cor 12,4-31), servirem à comunidade e à humanidade. “O Batismo significa e realiza uma incorporação, mística, mas real, no corpo crucificado e glorioso de Jesus”77. Portanto, o Batismo é a fonte da comum dignidade dos cristãos e da legitimidade da diversidade das vocações e dos ministérios (cf. LG, 32).

85.  Redimidos e justificados, estamos habilitados a produzir, em abundância, frutos de justiça. No momento em que a Igreja pronuncia liturgicamente a fórmula que rememora a ação de Jesus: -eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo… – , o cristão é inserido não somente em uma comunidade humana imperfeita, como é a Igreja, por mais santa que seja, mas em uma comunhão trinitária.

86.  O cristão, pelo batismo, é vocacionado, chamado pelo Pai a ser ouvinte da Palavra.  Adotado como filho bem amado e justificado dos seus pecados, é incorporado a Jesus Cristo. Ungido pelo Espírito para a missão é inserido na Igreja. No batismo, a mesma voz que um dia foi ouvida, declarando Jesus Filho amado, é ouvida por nós. O mesmo Espírito que o ungiu e o enviou em missão (cf. Lc 4,18-19), nos unge e nos consagra para vivermos uma vida nova (At 2,17). A missão de Jesus dá sentido, acompanha e impulsiona o envio missionário78 do cristão ao mundo (Mt 28,19-20).

87.  No final do evangelho de Mateus (Mt 28,19) e de Marcos (Mc 16,16), Jesus ordena aos seus discípulos: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Os discípulos partem para a missão e batizam as pessoas que abraçam a fé, cumprindo o mandato do Mestre e recordando a cena realizada às margens do rio Jordão, onde o próprio Jesus se fez batizar por João Batista79. A observação do ministério de Jesus, desde o seu batismo, abre novos horizontes para a animação vocacional.

88.  Jesus se fez batizar para mostrar o seu compromisso de amor com toda a humanidade. Seu batismo indica ainda o compromisso com a justiça defendida por João Batista e por todos os profetas. Depois de ser batizado, Jesus iniciou um novo e decisivo caminho de fidelidade ao Pai.

89.  O batismo de Jesus manifesta a sua vocação profética e a sua relação amorosa com o Pai. Também o nosso batismo expressa essa relação de amor entre os seguidores de Jesus e o Pai, o qual adota todos como filhos, chamados a construir e habitar no Reino. O batismo é o alicerce da vida cristã e permite compreender a Igreja como a comunidade dos batizados, seguidores de Jesus, abertos à luz do Espírito que nos conduz na missão evangelizadora80.

c) Batismo: fonte de todas as vocações

90.  Todos os vocacionados e vocacionadas, ao serem batizados, recebem o mesmo Espírito que animou a vida de Jesus. Os batizados são movidos pelo Espírito que é a força do Pai, geradora de vida no seio de Maria. Deste modo, os cristãos, vivendo segundo o Espírito, assumem, como Jesus, o Verbo que se fez carne, os desafios da humanidade. O centro da vida de todos os batizados é a pessoa de Jesus e sua proposta transformadora de amor e de justiça. Portanto, “pelo batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus; tornando-nos membros de Cristo, somos incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão”81.

91.  Neste ano vocacional avancemos para águas mais profundas, transformando as nossas pias batismais em fontes de todas as vocações. O Batismo certamente está na origem de todas as vocações, mas ele precisa ainda ser redescoberto como chamamento divino que nos incorpora ao Povo de Deus, nos habilita para a comunhão, a participação e a missão (P, 852). Por isso é indispensável que o SAV tenha a coragem de “desenvolver a vida do batismo pela qual nos tornamos filhos” (P, 295). É preciso que o Batismo passe a ser, de fato, a raiz e o significado da vocação e da missão dos cristãos e cristãs (P, 786).

 

2.2. Em atenção à Palavra

92.  Além dessas reflexões sobre o batismo de Jesus e sobre o nosso batismo, é necessário meditar um pouco sobre o texto de Lucas que inspirou o lema deste Ano Vocacional82. O contato com esta página do terceiro Evangelho vai oferecer a fundamentação para ações mais corajosas e mais audazes no campo da animação vocacional. Vai nos permitir avançar, abraçando iniciativas e assumindo compromissos que darão ao serviço vocacional de nossas Igrejas mais ânimo e mais entusiasmo.

a) O texto (Lc 5,1-11)83

93.   1Certo dia, Jesus estava à beira do lago de Genesaré, e a multidão se comprimia a seu redor para ouvir a Palavra de Deus. 2Ele viu dois barcos à beira do lago; os pescadores tinha descido e lavavam as redes. 3Subiu num dos barcos, o de Simão, e pediu que se afastasse um pouco da terra. Sentado, desde o barco, ensinava as multidões. 4Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Avança mais para o fundo, e ali lançai vossas redes para a pesca’. 5Simão respondeu: ‘Mestre, trabalhamos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, pela tua palavra, lançarei as redes’. 6Agindo assim, pegaram tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. 7Fizeram sinal aos companheiros do outro barco, para que viessem ajudá-los. Eles vieram e encheram os dois barcos a ponto de quase afundarem. 8Vendo isso, Simão Pedro caiu de joelhos diante de Jesus, dizendo: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!’. 9Ele e todos os que estavam com ele ficaram espantados com a quantidade de peixes que tinham pescado. 10O mesmo ocorreu a Tiago e João, filhos de Zebedeu e sócios de Simão. Jesus disse a Simão: ‘Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!’ 11Eles levaram os barcos para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”.

b) À beira do lago

94.  Após narrar o batismo de Jesus, Lucas apresenta a genealogia de Cristo84, a qual é uma forma usada pelo evangelista para mostrar Jesus como uma pessoa concreta, filho de José, inserido nas gerações e na história do povo de Deus. Em seguida, o autor mostra a vitória de Jesus sobre as tentações sofridas no deserto por quarenta dias (Lc 4,1-13). Logo depois, Jesus aparece na sinagoga de Nazaré desenrolando e lendo o livro de Isaías (Lc 4,18-19). Mais tarde o Mestre estará em Cafarnaum, ensinando com autoridade, expulsando demônios e realizando milagres (Lc 4,31-44).

95.  Desenvolvendo o seu ministério itinerante a partir de Nazaré, onde traçou o programa de sua missão evangelizadora, seguindo o caminho e passando por Cafarnaum, o Mestre chega à beira do lago de Genesaré. Ele está acompanhado pela “multidão que se comprimia ao redor dele para ouvir a Palavra de Deus” (Lc 5,1). Lucas já havia afirmado anteriormente que a fama de Jesus havia se espalhado por toda a região (Lc 4,37). O evangelista apresenta Jesus pregando à multidão à beira do lago da Galiléia. O povo, sedento, se comprime em torno da pessoa de Jesus. Ele é o Mestre que anuncia com autoridade a Palavra de Deus que atrai, desperta e fascina.

96.  Este modo de Jesus fazer “animação vocacional”, chamar discípulos e discípulas, encontra-se em todos os Evangelhos. O Mestre não espera, mas vai lá onde as pessoas se encontram. À beira do lago de Genesaré, chama os pescadores. Junto ao poço de Jacó, dialoga com a samaritana (Jo 4,4-41). Na entrada de Jericó, conversa com o cego (Mc 10,46-52). Atravessando a cidade, chama Zaqueu (Lc 19,1-10). Nesta atitude do Mestre percebe-se também a sua vontade de convocar pessoas diferentes para segui-lo de diversas maneiras. De fato, umas passam a acompanhá-lo de perto (3,13-19), outras vão encontrá-lo de vez em quando (Jo 3,1-21). A grande maioria permanece em suas casas, seguindo a sua Palavra (Lc 10,38-42). Todas, porém, fazem parte da grande família de Jesus (Mc 3,31-35). Diferente de outros mestres de sua época, Jesus ensina com autoridade e com um jeito muito original. Vive de forma itinerante, ensina a multidão, escolhe os seus discípulos, os quais serão gradualmente inseridos na missão de testemunhar e anunciar o Reino de Deus (Lc 10,1-20). Estes discípulos, mais tarde, proclamarão o Evangelho “em Jerusalém, por toda a Judéia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8).

c) O Mestre anuncia a Palavra de Deus

97.  Na cena que se desenvolve junto ao lago de Genesaré, também chamado de mar da Galiléia ou de Tiberíades (Jo 6,1), a narrativa está centrada na escuta, na força e na obediência à Palavra de Deus, comunicada por Jesus. A Palavra de Deus é o elo de ligação entre Jesus e a multidão, da qual provém os seus discípulos. Percebe-se aqui os três momentos que compõem o itinerário vocacional dos quatro primeiros discípulos: a) Jesus anuncia a Palavra de Deus (Lc 5,1); b) Simão atende a essa Palavra que pede para lançar as redes (Lc 5,4); c) Os discípulos reconduzem os barcos à terra, deixando tudo para seguir o Mestre (Lc 5,11). Ao descobrir que a fala de Jesus é a Palavra de Deus, Pedro e seus companheiros não apenas cumprem a ordem de lançar as redes de dia, contrariando a própria experiência de pescar à noite, mas também deixam tudo para seguir o Mestre que os convocou para serem “pescadores de homens” (Lc 5,10). Lucas nos mostra que os seguidores de Jesus formam a comunidade de testemunhas que praticam a Palavra. Esse fato revela a necessidade de uma vida coerente que una atos e palavras. Ele pode e deve inspirar a vida de todos os vocacionados e animadores de todas as vocações e ministérios.

d) Os pescadores seguem Jesus

98.  Diferente de Mateus e Marcos, Lucas narra a vocação dos quatro pescadores, após a série de milagres que Jesus realizou em Cafarnaum, inclusive na casa de Pedro (Lc 4,38-39). Esse deslocamento permite justificar a generosa adesão de Pedro e seus companheiros à pessoa de Jesus, uma vez que eles já haviam realizado uma experiência com o Mestre, acolhendo-o em suas casas e no meio de seus familiares. Lucas observa a lógica segundo a qual ninguém segue alguém sem antes conhecê-lo. Pedro e seus companheiros, ao deixarem tudo para seguir Jesus, já o conheciam, ao menos em parte. Jesus, antes de convocar os pescadores para deixarem as barcas e as redes, visita a casa de Pedro e conhece a sua família (Lc 4,38). É um “animador vocacional” que conhece bem a história e as origens dos seus vocacionados.

99.  Após a pesca milagrosa, a cena ganha uma tonalidade toda particular. Pedro, com o coração oscilando entre o fascínio e o espanto, dirige-se a Jesus com um título pascal. Ele, que antes chamara Jesus de “Mestre”85 (Lc 5,5), depois da pesca milagrosa, manifesta sua fé chamando-o de “Senhor”86. Esse título aponta a vitória de Jesus sobre a morte, faz referência à ressurreição e ao triunfo da vida. A experiência vocacional traz uma dimensão pascal, isto é, passagem para uma nova realidade a serviço do Reino e da vida. Os pescadores, num certo sentido, fazem um novo êxodo, deixando as barcas e as redes, seguindo Jesus e caminhando numa nova direção.

e) O jeito de Jesus

100.      Anunciador itinerante e comunicador criativo, Jesus sobe na barca de Simão, pede para afastar-se um pouco da margem para poder ser visto e ouvido por todos. O Mestre busca novas formas de se comunicar com a multidão que está aberta para acolher a Palavra de Deus (Lc 5,3). Percebe-se nele o desejo de uma comunicação direta, de uma linguagem simples e inculturada à realidade do povo. A expressão “pescadores de homens” é facilmente compreendida por Pedro e seus companheiros87. O jeito de Jesus chamar é livre, espontâneo, criativo e sensível às reais necessidades das pessoas88. Simão, o dono da barca, simples pescador, mais tarde será escolhido para liderar os discípulos e todo povo cristão89. Mas a barca, aqui neste contexto, simboliza também o lugar concreto onde a vida acontece. Ela era o meio de sobrevivência para aqueles homens e suas famílias. Para o serviço às vocações tal simbologia tem um significado muito profundo. Fala antes de tudo da necessidade de se fazer uma animação vocacional inculturada (SD, 80). A inculturação, por sua vez, supõe a coragem de ir até “à beira do lago” (Lc 5,1), ou seja, lá onde os vocacionados e vocacionadas estão vivendo, para participar de suas alegrias e de suas frustrações.

 

2.3. A vocação dos pescadores

a) O chamado a lançar as redes

101.      Após a sua pregação, Jesus ordena a Simão que avance para as águas mais profundas, lançando as redes para a pesca (Lc 5,4). Pedro espontaneamente, com fé simples e obediente, numa atitude de total confiança e abandono, atende ao convite de Jesus90. A Palavra do Mestre, escutada, hoje, pela Igreja peregrina, convida-nos “a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, a abrir-nos com confiança para o futuro” (NMI, 1). Para a animação vocacional, ela significa uma proposta corajosa, um pedido para que vejamos mais longe, além dos horizontes, buscando novas formas, novos métodos, novo ardor. O convite de Jesus é um desafio a nos lançarmos para o futuro, traduzindo o entusiasmo vocacional em “diretrizes concretas de ação” (NMI, 3), capazes de dar novo impulso e novo dinamismo ao que já estamos realizando. Avançar é superar toda “sensação de saciedade”, é romper com possíveis “atitudes de relaxamento” e “investir em iniciativas concretas aquele entusiasmo que sentimos” (NMI, 15).

 

b) A disponibilidade dos vocacionados

102.      A atitude de Pedro, de Tiago e de João manifesta a disponibilidade para seguir Jesus (Lc 5,11). Pode-se dizer, que eles nunca deixaram de ser pescadores. Eles terão novas redes e barcas que, simbolicamente, representam a Igreja e a sua missão evangelizadora. Pedro e seus companheiros não deixam o trabalho no lago de Genesaré movidos apenas pelo entusiasmo despertado pela pesca milagrosa. Eles já tinham sido visitados por Jesus em Cafarnaum. Os pescadores, após vários encontros e convivência com Jesus, receberam e acolheram a proposta de “capturarem”91 pessoas para a vida.

c) “Não tenhas medo!”

103.      Desafiando a experiência dos pescadores, Jesus ordena a Simão e seus companheiros a lançarem as redes em pleno dia, quando a hora é imprópria (Lc 5,4). O evangelista descreve alguns detalhes que dinamizam a cena: as redes que se rompem por causa da grande quantidade de peixes e as barcas que quase afundam. Com o coração confiante e fascinado pela pessoa de Jesus, Simão grita, expressando a consciência de sua pequenez: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!” (Lc 5,8)92. O evangelista mostra como Pedro, espantado e cheio de temor, descobre que Deus entrou em sua vida mediante as palavras e a pessoa divina de Jesus. No Antigo Testamento, essa era a reação das pessoas diante da manifestação de Deus (cf. Êx 33,20; Is 6,5). O Mestre o tranqüiliza: “Não tenhas medo!” (Lc 5,10), convocando-o para a missão, tornando-o modelo e referencial para os seus companheiros: “Doravante serás pescador de homens” (Lc 5,10). Com isso Jesus manifesta a sua confiança em Pedro, levando-o a superar os obstáculos e acenando para a sua futura missão.

104.      Na introdução lembrou-se que o momento atual se caracteriza pela desconfiança e pelo desânimo. Recordava-se o cansaço de muitas lideranças, a vontade de retroceder e de parar. A sensação, muitas vezes, é de que os problemas e desafios são maiores do que as nossas forças. Numa situação como esta é muito comum o medo, o temor e até mesmo o pavor. Por isso o gesto tranquilizador de Jesus – “Não tenhas medo!” (Lc 5,10) – deve ser recordado hoje com mais freqüência. O Mestre nos garante que vai estar conosco “até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Portanto, não ter medo significa acreditar plenamente no amor de Cristo, não se deixar vencer pelos próprios limites e fraquezas e prosseguir com firmeza na missão. Para a animação vocacional isso significa ter audácia para enfrentar os novos desafios, procurando novos métodos que possibilitem “o cultivo multiforme das vocações”93.

d) A identidade do discípulo

105.      Acolhendo a palavra de Jesus, Pedro e seus companheiros inauguram uma nova fase da vida e começam a formar o embrião do novo povo de Deus. Povo que será guiado pelo Espírito e liderado por esses pescadores. Propondo aos pescadores uma nova missão, Jesus manifesta a necessidade de pessoas que estejam dispostas a deixar tudo para assumir a causa do Reino. Lucas mostra a multidão querendo ouvir a palavra de Deus. Mas poucos são capazes de deixar os seus “afazeres” para seguir Jesus, na condição de apóstolos. Nota-se uma desproporção numérica entre a multidão de ouvintes e os quatro pescadores chamados pelo Mestre. Mais adiante, o evangelista apresentará Jesus ensinando a pedir novos operários para a messe: “E dizia-lhes: A colheita é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para sua colheita” (Lc 10,2).

 

e) A reação dos vocacionados pescadores

106.      Os primeiros vocacionados acolhem progressivamente o chamado de Jesus. Inicialmente eles estão no meio da multidão (Lc 5,1), fazendo parte dos que escutam atentamente a fala do Mestre, que é Palavra de Deus. Eram pessoas do povo. Quando Jesus ordena a Pedro que  lance as redes, a primeira reação do experiente pescador foi de questionamento (cf. Lc 5,5a). Mesmo assim ele age conforme o pedido de Jesus. Diante do resultado da pesca, Pedro fica maravilhado e pede auxílio aos seus companheiros (Lc 5,7). Desse modo, o evangelista mostra que os primeiros vocacionados de Jesus eram pessoas simples, trabalhadoras, gente que escutava a Palavra de Deus.

107.      Ao dizer que os pescadores abandonaram as barcas, “deixaram tudo e seguiram Jesus” (Lc 5,11), o evangelista chama a atenção para um outro elemento importante. O seguimento de Jesus comporta determinadas rupturas tantas vezes radicais (Lc 18,18-27). Sem elas é praticamente impossível viver como discípulos do Mestre (cf. Lc 14,25-33). Deixar as barcas, para Pedro e seus companheiros, significava deixar tudo, inclusive o estabelecido, o rotineiro, o costumeiro, mas também o mais agradável e o mais seguro. A resposta à vocação, tantas vezes, vai exigir esta coragem. Do mesmo modo, a animação vocacional, se quiser ser evangélica e eficaz em nossos dias, terá que ter a audácia de romper com os preconceitos, com a rotina e com certos programas previamente projetados, para trilhar por caminhos que o Senhor deseja que passemos. Só quando se “deixa tudo” consegue-se avançar no seguimento de Jesus.

f) Jesus, animador vocacional

108.      A grande quantidade de peixes indica simbolicamente o resultado do ministério de Jesus que anunciava a palavra de Deus à multidão. Jesus é o pescador de Deus que anuncia a Boa Notícia do evangelho ao povo. A missão evangelizadora, o anúncio da Boa Nova e o serviço do Reino são apresentados como uma pescaria na qual Jesus envolve Pedro e seus companheiros que estão atentos à sua palavra (Lc 5,5). Lucas compara o ministério de Jesus com uma pescaria bem sucedida. O  próprio Jesus está na barca de Pedro, participando da nova missão assumida por esses pescadores no lago que simboliza o povo de Deus.

109.      Aprofundando o simbolismo dessa pescaria, pode-se acrescentar que as redes assinalam a missão evangelizadora dos pescadores, enquanto as barcas representam a própria comunidade eclesial. Pedro e seus companheiros ensinam a acreditar na palavra de Jesus, lançar de novo as redes, mesmo se a hora parece imprópria, pedir ajuda no serviço, e deixar tudo para seguir o Mestre.

110.      A meditação desta página de Lucas, abre novos horizontes para os animadores e animadoras vocacionais. Fica claro, que o jeito de Jesus chamar os pescadores no lago de Genesaré, questiona o serviço de muitos animadores vocacionais “pescadores”, os quais chamam sem antes evangelizar, sem conhecer as famílias dos vocacionados, sem aproximar-se da realidade onde eles vivem. Questiona certo tipo de animação vocacional que não respeita a especificidade de cada vocacionado, tratando todos do mesmo jeito, sem levar em conta as diferenças culturais e a diversidade de vocações e ministérios que o Espírito, na sua liberdade (cf. 1Cor 12,4-11), deseja suscitar no meio do Povo de Deus, conforme as necessidades do mundo e da Igreja94.

111.      O estilo original de Jesus chamar pescadores para o Reino permanece como referencial para a animação vocacional. Hoje, os pescadores são todas as pessoas batizadas95, vocacionadas a chamar, a evangelizar, a proteger, a estimar e a amar o dom da vocação de cada ser humano. Por isso, urge, também aqui, “avançar para águas mais profundas”, fazendo com que a animação vocacional tenha um “rosto verdadeiramente eclesial, desenvolvendo uma ação concorde, servindo-se também de organismos específicos e de adequados instrumentos de comunhão e de co-responsabilidade” (PDV, 41).

 

PROPOSTAS PARA A EQUIPE VOCACIONAL LOCAL

1.   Logo na primeira semana da Páscoa, reunir a equipe vocacional. Retomar os dados do painel e confrontá-los com a segunda parte do texto-base (reflexão bíblica).

2.   Buscar na reflexão bíblica inspiração para enfrentar os desafios apontados pelo painel.

3.   Elaborar um grande painel com a “pesca milagrosa” (cf. Lc 5,1-11).

4.   Sobre os peixes que estiverem na rede, escrever as inspirações suscitadas pela reflexão bíblica.

5.   Sobre as ondas das águas do mar, escrever a programação da comunidade para o Ano Vocacional 2003.

6.   Colocar este painel ao lado do primeiro e convidar a comunidade a participar das atividades programadas para o Ano Vocacional


3. AVANÇOS À LUZ DA VOCAÇÃO BATISMAL

 

“Avança mais para o fundo,

e ali lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4b)

 

3.1. Avanços na compreensão vocacional

112.      A reflexão feita até agora nos permite passar à consideração dos avanços obtidos até o momento e aqueles que ainda precisam acontecer. Vamos começar com a teologia e a eclesiologia da vocação para vermos, em seguida, algumas pistas de ação.

a) Teologia da vocação

113.      Há muito tempo, sobretudo depois do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, estamos percebendo que a teologia da vocação é um elemento de fundamental importância para a animação vocacional. Cada vez mais vai ficando bem claro que, sem o embasamento teológico, corremos o risco de sermos superficiais no nosso trabalho vocacional. Convém, pois, recordar os principais elementos de teologia da vocação, indispensáveis à fundamentação da nossa prática de animação vocacional.

114.      Já avançamos muito na prática da animação vocacional, porém tem faltado uma teologia que dê suporte ao que fazemos96. Isso, como vimos anteriormente, foi reforçado pela pesquisa realizada pelo Setor Vocações e Ministérios. A ausência de uma verdadeira teologia da vocação e das vocações leva alguns animadores e animadoras a pensarem a questão vocacional apenas em vista das necessidades e da pura e simples manutenção do elemento institucional. Dentro desse clima, o discernimento, por vezes, é colocado de lado ou feito sem muita profundidade. Com isso  a Igreja corre o risco de ficar sem testemunhas, sem evangelizadores que queiram assumir a missão de anunciar a Boa Notícia97.

115.      A correta teologia da vocação brota de uma autêntica teologia do batismo. Esta é a base para compreendermos o significado verdadeiro das vocações e dos ministérios na Igreja. Por isso, antes mesmo de falar das vocações específicas, precisamos ter presente a teologia do batismo e a vocação batismal. “A partir do batismo, todos somos chamados à santidade, à fé, ao seguimento do Senhor, à graça. Todas as outras vocações nascem da vocação batismal. O batismo é a base que sustenta todos os ministérios”98.

116.      Este ensinamento foi redescoberto pelo Vaticano II (LG, 39-42) e reafirmado recentemente pelo papa João Paulo II99. O aprofundamento da vocação batismal e do chamado à santidade vai nos permitir superar uma série de dificuldades que ainda encontramos na animação vocacional. Provocará, sem dúvida alguma, um grande avanço na animação vocacional. Lembrando que ainda sofremos por “falta de uma teologia mais sistemática sobre as vocações”100, precisamos considerar melhor este aspecto, destacando sobretudo a dimensão trinitária do chamamento divino. “Deus é a fonte da vocação: o Pai chama para a missão; o Filho, servidor do Pai, exprime esse chamado, nos envia; e o Espírito Santo faz ecoar a palavra em vista do bem de todos”101.

b) A vocação é amar

117.      “A vocação é amar. A pessoa humana é um ser no amor e para o amor. Precisa-se recuperar o autêntico sentido de vocação e ministério que às vezes é compreendido numa perspectiva funcionalista”102. Só quem ama, porque foi amado primeiro (cf. 1Jo 4,10), pode ser capaz de uma plena oblatividade. “Quem ama não se sente auto-suficiente, mas livre para amar sem retorno, porque o impulso vem de dentro: Deus despejou em mim o seu amor e a sua força; não preciso impor aos outros os meus preços”103. O próprio Jesus nos ama, a ponto de dar a sua vida por nós (cf. Jo 15,13), porque, como vimos antes, ele fez a extraordinária experiência de ser o “Filho amado” do Pai (Lc 3,22).

118.      A percepção do amor é o critério decisivo para o discernimento vocacional. Por isso precisamos cuidadosamente verificar se a opção vocacional está sendo uma resposta amorosa ao amor grandioso da Trindade104. Na bíblia, a vocação humana e cristã se apresenta como uma verdadeira experiência de sedução105. Por meio dessa experiência “Deus convida a pessoa a entrar na sua intimidade, num verdadeiro relacionamento amoroso”106. O amor tem os seus sinais, tem as suas expressões. Sem isso, toda animação vocacional torna-se insossa. Sem o amor não é possível pensar em vocações verdadeiras.

c) A vocação à vida

119.      Isso traz à tona o elemento antropológico da vocação, o qual é anterior à dimensão eclesial. O primeiro e fundamental chamado divino é a “grande vocação à vida107, o chamamento à existência108. Deus nos chama antes de tudo a sermos pessoas humanas realizadas e felizes. Este é um aspecto do chamado que diz respeito a toda a humanidade.  A animação vocacional deverá, antes de tudo, promover “a vocação natural” do ser humano, aquela que desde sempre esteve inscrita no coração de cada homem e de cada mulher. Em termos mais concretos isto significa pensar a eleição divina no contexto da criação, do chamado à comunhão, das relações interpessoais. Significa  que a animação vocacional começa com o despertar para a vivência plena da natureza social do ser humano. Ela precisa estar atenta ao desenvolvimento da história da humanidade, às questões políticas, ao problema do trabalho e assim por diante. Toca à animação vocacional contribuir para que os homens e as mulheres atuem na realização de projetos que, de fato, gerem vida e autêntica felicidade para todas as pessoas109. 

120.      Na primeira parte deste texto tivemos a oportunidade de ver como a vida se encontra seriamente ameaçada. Seria um absurdo pensar que podemos servir a Deus, deixando de lado a vida dos irmãos e irmãs (cf. 1Jo 4,20; Tg 2,1-11). Portanto, a dimensão antropológica da vocação exige também um compromisso em defesa da vida. Neste sentido, sem rodeios, deve-se afirmar que o serviço de animação vocacional deverá ser também “um anúncio de que todas as pessoas, feitas à imagem e semelhança do Criador, precisam ser respeitadas em todos os seus direitos inalienáveis”110. A animação vocacional de nossas Igrejas locais precisa entender que a “nossa vocação há de ser a da inclusão, do respeito profundo a cada vida, sem exclusões de qualquer tipo”111. O próprio batismo é também um ato de inclusão que rompe com toda e qualquer forma de discriminação (cf. Gl 3,26-29). A unidade desejada por Jesus, fruto da experiência da prática do amor (cf. Jo 17,20-26), implica a superação da exclusão (cf. Jo 6,39) e da acepção das pessoas (cf. At 10,34; Rm 2,11; Gl 2,6).

121.      Dentro desta perspectiva antropológica, a vocação cristã precisa ser apresentada sempre como serviço ao mundo (cf. GS, 41-43). “Todos, na Igreja, são chamados para um determinado serviço. Somos um povo de servidores”112. A animação vocacional deve apontar para o seguimento de Jesus Servidor dos pobres e marginalizados113, deixando bem claro que a vocação é uma convocação para “lavar os pés” (Jo 13,1-17) da humanidade, para ser presença que serve. A animação vocacional deve ser um espaço de gestação de verdadeiros discípulos e discípulas Daquele que veio não para ser servido, mas para servir (cf. Mc 10,45).

 

d) A eclesiologia da vocação

122.      Além da teologia da vocação, cabe também aqui uma referência à eclesiologia, uma vez que o serviço às vocações está intimamente relacionado com a vida da Igreja, com a experiência eclesial de cada diocese e com os conceitos eclesiológicos presentes na mente dos que fazem a animação vocacional.

123.      Convém começar com um olhar sobre a Igreja dos nossos dias, uma vez que a análise do texto de Lucas, vista um pouco antes, se conclui com a apresentação dos vocacionados de Jesus, chamados a “pescar” em outra barca, a barca da comunidade cristã. Portanto, antes de mais nada, temos que ver o que está acontecendo dentro da comunidade eclesial. Uma das grandes contribuições advindas do 1.º Congresso Vocacional do Brasil foi certamente a interpretação realista, a fotografia do interior da nossa Igreja114. O Congresso Vocacional percebeu as mudanças profundas e rápidas pela qual passava a nossa Igreja naquele momento. A partir dessa percepção, os animadores e animadoras vocacionais, presentes em Itaici, foram capazes de avaliar as diversas expressões de Igreja que se manifestavam naquela ocasião115. Tal avaliação levou-os à conclusão de que estas diferentes formas de concretizar o ser Igreja têm influências significativas nas motivações que levam as pessoas “a assumir e viver a fé e a vocação”116. Disso nasceu nos participantes a convicção da existência de um grande desafio para o SAV. Ele deverá ser capaz de, com a ajuda do Espírito do Senhor, colaborar eficazmente para a construção de “uma Igreja, onde todos os aspectos essenciais para a sua vida e  para a sua missão, no meio da humanidade, sejam bem integrados”117.

124.      A perspectiva antropológica, vista anteriormente, apontou para a urgente necessidade de termos uma animação vocacional “feita a partir da visão da Igreja como um povo de servidores, dentro do pluralismo das vocações, ministérios e carismas”118. Porém, tal perspectiva não é possível quando um único cenário de Igreja tende a se impor. É preciso pensar numa animação vocacional que desperte para a diversidade. No processo de discernimento, é necessário ajudar os vocacionados a olharem para “a decisão vocacional como um serviço aos irmãos e não como ascensão social ou busca de uma posição privilegiada na sociedade e na Igreja”119.

125.      Toda animação vocacional feita a partir da experiência da Igreja “Povo de Deus” (cf. LG, 9-17), deve ter a audácia de propor um seguimento de Jesus que seja, de fato, permanente escola onde se aprende que toda vocação é sempre uma vida diaconal”: “Eu estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lc 22,27).

126.      Do mesmo modo, não podemos esquecer que a preocupação com as vocações deve ser de toda a comunidade cristã (OT,2). Por isso, com muita desenvoltura e coragem, precisamos insistir no princípio de “que todos somos animadores vocacionais”120, ou seja, responsáveis uns pela vocação dos outros. Cada pessoa batizada tem a responsabilidade de viver bem o chamado, mas também de contribuir para que as demais tenham condições de responder ao chamamento divino para ser gente e para seguir Jesus.

127.      Outro dado eclesiológico fundamental é o que mostra a comunidade eclesial, como “a mediadora da vocação e o lugar de sua manifestação”121. A nossa resposta vocacional precisa colaborar para que tenhamos, de fato, uma Igreja que seja espaço de ação do Espírito que quer suscitar as vocações do Pai, no seguimento de Jesus. Isso quer dizer que não é suficiente qualquer jeito de Igreja. Existe um modelo, ou se quisermos, um cenário de Igreja, que é o lugar do apelo, do chamamento divino122. Os subsídios vocacionais devem contemplar essas exigências, evitando as propostas tentadoras de certo marketing religioso123.

128.      Não podemos oferecer aos cristãos de hoje apenas uma experiência do sagrado. Precisamos propor uma autêntica espiritualidade, capaz de lhes dar ânimo e coragem para continuar firmes na missão, mesmo diante dos inúmeros desafios que aparecem124. Não é possível seguir Jesus Cristo nos tempos atuais sem experimentarmos quotidianamente a graça de Deus e sem o esforço para permanecermos coerentes com as exigências do discipulado. No âmbito da animação vocacional isso é ainda mais evidente125. Os animadores vocacionais serão capazes de comunicar o chamado divino na medida em que forem pessoas profundamente marcadas pelo amor da Trindade (cf. 1Jo 1,1-4) e pela compaixão para com a humanidade (1Jo 4,19-21). Por sua vez, os vocacionados e vocacionadas saberão responder com prontidão ao chamamento divino quando tiverem experimentado o “mistério de Deus” (2.º CIV, 7).

129.      Estes aspectos da teologia e da eclesiologia, se bem trabalhados na animação vocacional, irão contribuir para deixar bem claro que o povo eleito de Deus é um só. Na Igreja, embora nem todos os cristãos caminhem pela mesma via, pela mesma vocação específica, todos temos a mesma e única dignidade e igualdade no que diz respeito à nossa identidade de discípulos e discípulas de Jesus e à nossa missão de evangelizar (cf. LG, 32). Essa mesma e igual dignidade nasce do mesmo e único chamado: a vocação à santidade, à plenitude da vida cristã que vem do batismo (cf. LG, 40).

 

3.2. Animação vocacional corajosa – pistas de ação

130.      No caminho percorrido até aqui tivemos a oportunidade de olhar para a realidade da animação vocacional no Brasil e iluminar este “rosto” com a Palavra de Deus e com a compreensão teológica da vocação. Nesta última parte desejamos apontar alguns avanços que, à luz do batismo, contribuem para a retomada, a transformação e o dinamismo do serviço vocacional.

131.      Tendo como pano de fundo a reflexão feita anteriormente, serão indicados agora alguns caminhos mais concretos para a prática da animação vocacional. Inicialmente serão feitas propostas mais amplas e, em seguida, pistas mais específicas. As primeiras são indicações mais abrangentes e trabalham elementos que podemos considerar mais permanentes do serviço de animação vocacional. Já o segundo grupo de propostas refere-se ao trabalho mais direto da animação vocacional.

3.2.1. Propostas mais amplas

a) Considerar o fenômeno da urbanização

132.      Prestando atenção à urbanização, fenômeno predominante na sociedade brasileira, o SAV precisa ter presente as seguintes exigências:

133.      Sensoriamento do real: fazer uma leitura interpretativa da realidade, não criando ilusões, procurando trabalhar a partir das questões vitais e das situações enfrentadas pelas pessoas que, diariamente, são provocadas pelos problemas e desafios da cidade ou da cultura urbana.

134.      A partir desse sensoriamento, procurar ser mais realista e usar de menos ficção, não pensando e nem projetando um tipo de atividade vocacional para pessoas que, na verdade, não existem mais. Trata-se de nos deixarmos tocar pela realidade, partindo das grandes interrogações dos homens e das mulheres dos nossos dias126.

135.      Atenção aos sinais dos tempos. Perceber que existe atualmente uma nova concepção do ser humano. Neste novo jeito de ver e de pensar, a pessoa e a sua corporeidade ocupam um lugar de destaque. Lembrar que, cada dia mais, as questões de gênero vão sendo tomadas a sério. Além disso, o homem e a mulher passam a ser vistos não mais como “donos” do mundo, mas parte do imenso cosmos, pequenas partículas da grande casa comum, o planeta Terra.

136.      Neste contexto sente-se a urgência de uma nova pedagogia Trata-se de aproximar-se, ou seja, “colocar-se no lugar de…”. Não perder-se em detalhes insignificantes e periféricos. Ter sensibilidade, buscando perceber quais são as questões vitais, as inquietações, para saber por onde começar a dialogar com as pessoas do nosso tempo, especialmente com os jovens.

137.      Tal pedagogia passa também pela flexibilidade, isto é, pela capacidade de procurar discernir qual é, hoje, a única coisa necessária. Superar os moralismos e rigorismos, mas sem nenhuma ingenuidade. O(a) animador(a) vocacional deverá ser alguém capaz de parar para explicar, para dar as razões das suas ações. Alguém que sabe escutar, acolher, “perder” tempo com as pessoas, rever o seu jeito de ser, redimensionar seus parâmetros de avaliação, abandonando o obsoleto.

138.      Mas não basta flexibilizar os processos pedagógicos. É indispensável promover uma animação vocacional verdadeiramente inculturada, ou seja, tornar inteligível a mensagem evangélica para as pessoas do nosso tempo. Toda atividade vocacional, na medida em que se percebe como interlocutora e mediadora do chamamento divino, precisa cuidar da sua capacidade de entender e de ser entendida; deverá fazer um esforço para compreender e para ser compreendida.

139.      A inculturação, na verdade, é uma grande dádiva. Sabe reconhecer o que é bom e, ao mesmo tempo, não despreza nada, vendo tudo segundo o projeto divino da criação. Somente a inculturação torna real a encarnação, evitando, ao mesmo tempo, que a cultura e o diferente sejam banalizados e revestidos de puro folclore. Sem inculturação corremos um duplo risco: o de comprometer o verdadeiro sentido do sagrado na vida e o de fazer desaparecer a distinção entre o que tem e o que não tem significado127.

140.      Aplicando-se este princípio à questão vocacional, isso significa a busca de uma animação vocacional capaz de “levar em conta as características próprias do povo brasileiro”128, investindo “em ações concretas inculturadas”129. A animação vocacional não pode viver de imitações e de mimetismo. Parece ter chegado o tempo de pensar realmente em algo que esteja mais identificado com as nossas culturas, com o rosto do nosso povo. O futuro das vocações passa pela coragem de revermos nossa metodologia, nossas práticas de animação vocacional, muitas vezes ainda importadas, copiadas e profundamente dependentes de outras culturas. Está na hora de levarmos mais a sério o eco profético da Conferência de Puebla: “A pastoral vocacional, por ser uma ação evangelizadora e orientada para a evangelização, missão da Igreja, deve ser encarnada e diversificada. Ou seja, deve responder, a partir da fé, aos problemas concretos de cada nação e região e refletir a unidade e variedade de funções e serviços deste corpo diversificado, cuja cabeça é Cristo” (P, 863).

b) Alimentar a mística

141.      Além da atenção ao fenômeno da urbanização é urgente a necessidade de se intensificar a mística e a oração no âmbito do serviço de animação vocacional. Hoje, acredita-se, há uma grande busca do sagrado.130. A vocação é a proposta de Deus e a resposta humana sobre estas questões. Certamente não teria muito êxito uma animação vocacional que não levasse em consideração esta realidade do momento atual.

142.      Porém, o maior motivo para darmos mais atenção à mística e à oração é o fato de que elas “são fontes que redefinem a dimensão profética e sócio-transformadora da pastoral vocacional”131. Isso significa que se falta uma mística, alimentada pela oração, a animação vocacional corre o risco de caducar, de não responder aos desafios do momento presente. Mas é bom não esquecer, daqui por diante, que a mística proposta para a animação vocacional não é qualquer coisa. Não vale qualquer “sagrado”132. A espiritualidade indispensável à animação vocacional é aquela que leva a nos debruçarmos sobre os caídos da nossa sociedade133. Portanto, uma mística que desperta a nossa sensibilidade e nos faz, como Jesus, ter “compaixão pelo povo excluído” 134.

143.      No que diz respeito à oração, ela é indispensável (cf. Mt 9,37-38), enquanto alimenta a mística e sustenta a caminhada de animadores e animadoras, dos vocacionados e vocacionadas135. Por isso, terá quer ser “uma oração insistente ao Senhor da messe” (NMI, 46).  Mas é preciso que se preste bem a atenção para o que se entende por oração pelas vocações. Talvez aqui esteja uma das questões a ser trabalhada no futuro. A oração da qual brota o verdadeiro “dinamismo vocacional”136, além de ser um gesto de “confiança no Senhor Jesus, que continua chamando para o seguir”, de abandono “ao Espírito Santo, autor e inspirador dos carismas” (VC, 64), é uma atitude permanente de vida, de escuta da vontade de Deus na Palavra e na história, na liturgia e na vida137. Além do mais, a oração pelas vocações supõe, ou melhor, pressupõe outros elementos não menos importantes. Supõe uma Igreja viva, dinâmica, profética, missionária. A oração é mais fecunda quando, com atitudes, projetos, itinerários, metodologias, acolhemos as vocações que o Senhor nos envia.138.

c) Usar de criatividade

144.      Hoje, para conviver com o acelerado processo de urbanização, com muita razão, pede-se bastante criatividade na animação vocacional139. Urge criar, inventar, encontrar saídas rápidas e soluções realistas. Entre as propostas de criatividade certamente ocupa um lugar de destaque a necessidade de maior atenção à questão dos ministérios na Igreja. Muitos deles podem ser a solução para tantos problemas provocados pela urbanização140. Precisaríamos aprofundar melhor esta temática, acolhendo corajosamente as propostas do 15.º Encontro Nacional de Pastoral Vocacional141. Nesta mesma linha, é indispensável usar de criatividade para compreender melhor o específico dos ministérios ordenados e da vida consagrada. É também necessário encontrar novas formas para o exercício destas vocações particulares, de modo que haja uma complementaridade e uma verdadeira interação com a atuação dos cristãos leigos e leigas (cf. NMI, 46).

d) Valorização da pessoa

145.      Será preciso também acolher a proposta da valorização da pessoa do vocacionado e da vocacionada142. No que diz respeito aos jovens, precisamos valorizá-los mais, vendo-os como pessoas humanas, com qualidades e muitas capacidades. Em vista disso, durante o itinerário vocacional, devemos olhar com mais carinho para aspectos importantes e significativos: a história da pessoa, sua afetividade e sua sexualidade, como nos lembrava a pesquisa apresentada na primeira parte deste texto-base. Dentro deste prisma, torna-se urgente insistir com as Equipes Vocacionais para que procurem dar mais atenção aos excluídos, aos portadores de algum tipo de necessidade, à diversidade cultural e étnica, com particular atenção aos indígenas, afro-brasileiros, nômades, migrantes e outros grupos ainda bastante desprezados e esquecidos pela sociedade de um modo geral143. Determinados preconceitos vocacionais ainda estão presentes em nosso meio, às vezes de forma bem visível, tocando-nos a responsabilidade de superá-los por completo144.

e) Outras propostas

146.      Ainda neste quadro das propostas mais amplas, lembrando que foi uma questão apontada pela pesquisa do SVM,  mencionamos a formação das equipes vocacionais. Embora em muitos lugares a dimensão vocacional da pastoral ainda esteja nas mãos de uma única pessoa, a experiência demonstra sempre mais que esse é um serviço a ser feito em equipe. Convém, todavia, ressaltar que a equipe vocacional não significa um grupo fechado, isolado da vida da Igreja, destinado a “recrutar” vocações para uma determinada instituição. A animação vocacional feita em equipe é, antes de tudo, uma ação que se dá na comunidade, com a comunidade e para a comunidade. Mais do que formar um grupo à parte, os membros da Equipe Vocacional são chamados a inserir-se nas diversas pastorais, grupos e serviços para, a partir desses espaços, suscitar nas pessoas a consciência vocacional. Portanto, neste Ano Vocacional será preciso acolher e assumir, como compromisso, a corajosa proposta lançada pelos bispos do Brasil em 1995: “A Igreja local e, quanto possível, cada Paróquia, criem Equipes de Pastoral Vocacional para animar e coordenar a promoção das vocações em todas as dimensões pastorais da vida cristã e ofereçam orientação e acompanhamento aos vocacionados”145.

147.      Por fim, ainda neste contexto de propostas mais amplas, não se deve esquecer a importância da alegria no seguimento de Jesus. É a regra de ouro da animação vocacional (VC, 64). A animação vocacional se completa quando conta com o testemunho de felicidade e realização vocacional. “Nada motiva tanto o despertar vocacional como o testemunho de vida alegre, realizada e feliz daqueles que fizeram a opção radical pelo Reino”146. O contra-testemunho, a falta de alegria e de entusiasmo, a apatia de algumas lideranças (bispos, padres, consagrados, leigos) atrapalham seriamente o serviço às vocações147.

148.      Para que tudo isso aconteça é indispensável investir na formação dos animadores e animadoras vocacionais. Não dá para continuar confiando apenas na boa vontade. Neste sentido é preciso pensar não só em oferecer meios para a preparação. É necessário liberar as pessoas de outras atividades, a fim de que se dediquem com mais afinco ao serviço de animação vocacional, fonte de vitalidade para a Igreja. As dioceses, congregações e institutos deverão ter mais coragem, mais audácia. Não será suficiente apenas falar rapidamente do assunto em reuniões e encontros. Temos que ter estratégias mais bem pensadas e que consigam atingir o seu objetivo. A preparação e a liberação de pessoas para o serviço vocacional dependem de uma PV organizada e planejada. Por isso, precisamos avançar muito mais nesta direção, lembrando que todo atraso na constituição de estruturas eficientes de animação vocacional resulta num “dano para a Igreja” (2.º CIV, 57).

149.      Quanto ao itinerário vocacional, convém estarmos atentos para os perigos da pressa e da precipitação148. A observação tem sentido, uma vez que ainda é um dos maiores limites da nossa animação vocacional. É indispensável fazer um acompanhamento personalizado e um discernimento adequado. Os candidatos e as candidatas devem passar por um caminho vocacional metódico e bem orientado. A opção vocacional é o resultado deste acompanhamento vocacional. Este deve ser ao mesmo tempo de pessoas e de grupos. Por isso é importante a inserção dos animadores e animadoras nos grupos eclesiais, de modo particular nos grupos de jovens.

150.      Hoje torna-se cada vez mais comum o caso de pessoas que abraçam o matrimônio sem nenhuma preparação e sem consciência do compromisso que estão assumindo. As pessoas chegam às pastorais, aos grupos, aos movimentos, mais como “convidados” do que como batizados e batizadas que descobriram naquele espaço o lugar da realização da resposta ao chamado divino. O resultado disso é o fenômeno do “trânsito religioso”: as pessoas freqüentam diversas igrejas, comunidades, passam por vários grupos, pastorais e movimentos, mas sem compromissos sólidos, “sem fincar raízes em nenhuma delas”149. Faltou um processo de iniciação na fé. Isso mostra que é preciso um grande avanço no que diz respeito à elaboração de um itinerário vocacional para os cristãos leigos e leigas, com o seu compasso, o tempo necessário e a metodologia apropriada150. O acompanhamento vocacional dos cristãos leigos e leigas pode ser pensado a partir do projeto de formação ou educação permanente na fé da Igreja local e, mais especificamente, a partir de algumas atividades já existentes em muitas dioceses. Entre essas atividades ocupa um lugar de destaque o catecumenato, conforme as orientações do Ritual de Iniciação Cristã de Adultos151. Outros momentos significativos podem ser: a preparação para a crisma, a preparação de pais e padrinhos, a preparação para o casamento e assim por diante. Basta que esses momentos sejam algo mais; não apenas “cursos”, mas verdadeiros espaços de discernimento vocacional.

 

3.2.2. As propostas mais específicas

151.      Além das propostas mais amplas que acabaram de ser mencionadas, faz-se necessário pensar também em algumas pistas que dizem respeito à atuação mais direta dos animadores, animadoras e das equipes vocacionais. Tais pistas, dando continuidade ao que tinha sido proposto pelo 1.º Congresso Vocacional do Brasil152, focalizam e respondem a situações que estão sendo constatadas nos Regionais e nas Dioceses. Seguem, portanto, algumas  sugestões para a questão da eclesialidade, da formação, da organização, do itinerário vocacional, da interação com a Pastoral Orgânica das Igrejas locais, dos serviços e  dos recursos.

a) Eclesialidade e formação

152.      No que diz respeito à eclesialidade e à formação, é indispensável começar pela sensibilização da comunidade, de modo que toda ela tenha uma mentalidade vocacional153. A experiência está mostrando que a animação vocacional só consegue ir adiante quando conta com o respaldo de uma comunidade que tem consciência de ser chamada e que deseja ser mediadora de vocações. Quando falta este clima na comunidade, a dimensão vocacional permanece isolada e vista apenas como algo periférico154.

153.      Além do clima vocacional na comunidade, é necessário pensar no acompanhamento e na formação teológica. O acompanhamento pela equipe de animação vocacional deve ser critério decisivo para a celebração do matrimônio, para o acolhimento nos grupos e pastorais para a aceitação de jovens nos seminários e casas de formação155.

154.      Quanto aos seminários e casas de formação, as estatísticas estão trazendo à tona um fato preocupante. Na medida em que aumenta o número de entradas nas instituições formativas, aumenta também o número de saídas, inclusive depois dos compromissos definitivos156. Além disso, uma boa parte dos que ficam parece viver num estado geral de apatia. Não existem dúvidas de que a raiz destes problemas está na falta de acompanhamento vocacional sério. A pesquisa feita com os seminaristas maiores religiosos, publicada pela CNBB em 1995, mostrava que o principal fator que levava um seminarista a deixar o seminário, naquela época, era o discernimento vocacional (30,9%), o qual, unido ao fato de que o processo de formação não ajudou a solidificar a opção (22,5%), demonstra a importância do acompanhamento vocacional anterior à entrada na instituição formativa157.

155.      Como para as demais vocações específicas, a formação dos cristãos leigos e leigas158 deve ser integral. Além da dimensão teológica e da espiritualidade, ela deve ajudar a desenvolver a dimensão humano-afetiva, a capacidade de autênticos relacionamentos, de compreensão da realidade, de fazer discernimento e de avaliar. Tudo em vista da perseverança no compromisso e da fidelidade aos valores éticos e evangélicos159. De fato, esta vocação específica tem exigências próprias, o que não significa afastamento dos cristãos leigos e leigas daqueles que se preparam para outras formas de vida.

156.      Ainda neste aspecto da eclesialidade e da formação, todo serviço de animação vocacional precisa ter presente “a dimensão missionária da Igreja”160. Sabemos que toda vocação é sempre para uma missão161. A animação vocacional deve enfocar melhor este aspecto, pois quando falta este dinamismo missionário pode-se deduzir que houve deficiência séria no processo de discernimento vocacional. De fato, todo verdadeiro encontro com o Senhor que chama “gera uma profunda transformação em todos aqueles que não se fecham a ele. O primeiro impulso que nasce dessa transformação é comunicar aos outros a riqueza descoberta nesse encontro”162. A missão renova a Igreja, revigora a sua fé e a sua identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações (RMi, 2).

157.      Tendo presente o resultado da pesquisa feita nos Regionais, é bom procurar avançar mais no estudo e na reflexão da teologia da missão e no discernimento da vocação como missão. Aliás, tanto no SAV como na PV, há uma grande preocupação com a vocação, mas a reflexão e a prática estão tantas vezes desligadas dos aspectos da missionariedade da Igreja163. Há que se insistir muito na formação das convicções dos vocacionados e vocacionadas para uma consciência missionária. Além disso, ressaltar, durante o período do discernimento, a importância do chamado para todos os âmbitos da missão, reconhecendo também o valor do compromisso de cada cristão com a missão universal, “ad gentes”, além fronteiras164.

158.      Todo esse dinamismo depende principalmente de uma espiritualidade missionária165. Um elemento fundamental dessa espiritualidade é a inserção no meio dos excluídos. Hoje é cada vez mais comum o fenômeno do “desclassamento166 entre os que assumem a vida religiosa e o presbiterato. A maioria dos que ingressam nos seminários diocesanos e nas congregações costumam ter uma “vida cômoda”, no sentido que não têm preocupação econômica.  Isso facilmente leva a um modo de viver que “não é coerente com a opção preferencial pelos pobres”167. A animação vocacional terá que enfrentar seriamente esse desafio. Avançar na direção da missionariedade significa também procurar reverter esse quadro de “aburguesamento” dos que entram na vida religiosa e nos presbitérios diocesanos.

159.      Por fim, no que diz respeito à formação dos animadores vocacionais, temos já em muitos lugares do Brasil as escolas vocacionais. Elas estão se revelando como espaço privilegiado de preparação daqueles que querem servir à Igreja no campo das vocações, dos ministérios e dos diferentes serviços. Permanece, porém, o desafio de fazer com que todas as pessoas chamadas a trabalhar na animação vocacional possam participar dessas escolas. Além disso, somos convidados a avançar na partilha e na solidariedade, uma vez que a principal dificuldade na realização dessas escolas vocacionais é a falta de recursos financeiros, especialmente quando se trata de cristãos leigos e leigas. Neste sentido, as Igrejas mais providas economicamente poderiam ser solidárias com as mais pobres.

b) Organização e itinerário vocacional

160.      Passando à temática da organização e do itinerário vocacional, destacamos uma questão ligada à vida consagrada. Esta, por natureza, é chamada a “atrair eficazmente todos os membros da Igreja a cumprirem com diligência os deveres da vocação cristã” (LG, 44). Por isso, vale a pena prestar mais atenção a essa realidade e investir em meios que possibilitem maior interesse dos consagrados e consagradas para com o serviço vocacional. Os responsáveis pelos institutos e congregações  deveriam cuidar melhor da sensibilização dos membros de suas comunidades para a causa das vocações.

161.      Outra proposta que merece ser considerada mais seriamente é o envolvimento da comunidade no discernimento vocacional168. Isso tem lógica uma vez que, normalmente, a comunidade não participa desse processo, quando, de acordo com o ensinamento do papa João Paulo II, ela  deveria ser a protagonista (cf. PDV, 41). O acompanhamento vocacional, tantas vezes, fica na mão de uma ou duas pessoas e, em muitos casos, é feito fora do âmbito da vida da comunidade local. Além do mais, o engajamento na comunidade nem sempre é considerado critério fundamental para a opção vocacional. Porém, não podemos esquecer que a participação da comunidade no processo de discernimento vocacional é algo positivo e extremamente importante, especialmente no momento de verificar as motivações dos vocacionados e vocacionadas. Todavia, para que isso aconteça, é necessário cuidar da qualidade da comunidade eclesial, a qual, por si mesma, pode e deve ser um atrativo vocacional. Quando a comunidade não é  expressão do seguimento de Jesus, ela desanima quem se sente chamado.

162.      Neste contexto coloca-se uma outra urgência: “Fazer acompanhamento personalizado e grupal dos vocacionados e vocacionadas nas suas famílias e comunidades”169. O enfoque dado à família é de fundamental importância para o futuro das vocações. Costumamos dar muita atenção aos jovens, mas quase sempre fora do contexto familiar. Todavia, o processo de discernimento vocacional deve ter sempre como pressuposto o fato de que a família “é o lugar normal do crescimento humano, cristão, vocacional dos filhos”170. Sem esquecer que um dos principais deveres da animação vocacional é exatamente ajudar a família na sua missão de educadora vocacional171. Pode-se igualmente valorizar, como espaço de discernimento vocacional, o engajamento de animadores vocacionais nos grupos de “iguais”, de coetâneos, de pessoas que se reúnem por motivos ou objetivos comuns. Assim sendo, um animador vocacional jovem pode inserir-se num grupo de jovem. Um animador vocacional  rural pode fazer animação vocacional entre os “sem-terra” ou entre os membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e assim por diante. Basta que se respeite a identidade de cada grupo e a maturidade correspondente a cada situação, condição ou faixa etária.

c) Interação com outras pastorais e dimensões

163.      Toda essa questão da inserção na comunidade nos ajuda a entender a importância da questão da interação do SAV com as pastorais, especialmente aquelas mais afins172. Hoje, com freqüência, fala-se também da globalização da solidariedade173. Isso vale também para a animação vocacional, mesmo porque ela não é apenas uma parte da Pastoral Orgânica, mas, como já foi dito, dimensão conatural e essencial de toda a evangelização.

164.      Dentro desta dinâmica, a interação com as Pastorais da Juventude, a Pastoral Familiar e Catequese são as mais significativas. Com a Juventude porque este é o momento da decisão vocacional e da inclinação natural para a vida em grupo. Com a família porque, como vimos há pouco, ela é o espaço onde a pessoa normalmente vai se descobrindo como gente e vai percebendo que a sua vida tem sentido. Com a Catequese porque essa é a oportunidade de refletir e conhecer o Deus que chama, bem como o lugar onde a vida cristã é apresentada como vocação.174.

165.      Cabe aqui uma palavra sobre o “serviço de animação vocacional no meio universitário”175, evidenciado também pela pesquisa de 2001. A presença da animação vocacional neste espaço tão importante significa uma contribuição concreta para a transformação do mundo e da sociedade. De fato, a universidade é ambiente natural de gestação dos pensadores, daqueles que vão fazer a cultura, elaborar projetos para o país, controlar a economia, avaliar os rumos e escolher os destinos da nação. Por isso, é urgente pensar numa maneira viável de fazer animação no mundo universitário. Pode-se começar com a criação e o acompanhamento de grupos em universidades, fazendo um trabalho articulado e em plena comunhão com a pastoral universitária.

166.      Ainda no campo da interação convém lembrar a importância de enfatizar a dimensão vocacional da Liturgia176. A proposta é significativa, uma vez que as celebrações litúrgicas devem ser momentos que “provocam” e chamam. Precisamos, pois, ter a coragem de pensar o itinerário vocacional nesta perspectiva, especialmente do Ano Litúrgico. Este, por si mesmo, já contém uma proposta vocacional. A própria espiritualidade litúrgico-sacramental favorece o discernimento e alimenta a opção vocacional.

167.      A Liturgia, enquanto cume, cimo da vida e da ação da Igreja, fonte de onde jorra o seu dinamismo (SC, 10), é o lugar privilegiado para se perceber o chamamento divino. A celebração dos sacramentos, particularmente a Eucaristia, é, por natureza, eminentemente vocacional. Por meio dela Deus está sempre chamando, convocando177. Portanto, no serviço de animação vocacional, é preciso valorizar sempre mais a convicção “de que o ano litúrgico deve transformar-se em escola permanente para o caminho vocacional e, sobretudo, de que os sacramentos da iniciação cristã cada vez mais devem ser entendidos como sacramentos de iniciação à vida consagrada a Deus e à Igreja”178. Por isso, é preciso pensar em estratégias concretas que ajudem a atingir este objetivo. Poderia se começar através de um intercâmbio maior entre a Equipe Vocacional local e a Equipe de Liturgia da comunidade. Nessa ação interativa deveria se trabalhar melhor a questão da preparação das celebrações litúrgicas e a importância da Eucaristia enquanto momento no qual se dá a assembléia dos que foram convocados pela Trindade179 .

168.      Um outro elemento bastante significativo é a proposta de realizar “uma interação entre a pastoral vocacional e a realidade política, em vista da libertação integral da pessoa humana”180. Normalmente, a questão política não aparece de modo explícito nos conteúdos e na prática da animação vocacional. Esta praxe precisa ser revista porque, como foi dito antes, o chamado à vida, a ser pessoa comprometida com o bem comum, antecede qualquer outra vocação específica. A vocação humana, como afirmou o concílio Vaticano II, possui uma índole comunitária (GS, 24). Cada pessoa, “por sua natureza, necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (GS, 25).

d) Os serviços e os recursos

169.      Toda e qualquer atividade vocacional não seria tão eficaz se não pensasse também nos serviços e nos recursos a serem utilizados. A partir do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, viu-se que tais serviços e recursos concentram-se em duas áreas bastante significativas: mídia e viabilização financeira.

170.      A preocupação com a mídia precisa tornar-se prioridade. Isso porque ela ocupa um lugar de destaque no momento atual. Não é possível hoje pensar um processo de evangelização, sem os meios de comunicação social181. Portanto, é indispensável a presença da Igreja neste espaço. E para ser presença é preciso dominar a sua linguagem, a sua natureza e as suas características, isto é, ter competência neste campo182. São indispensáveis também a ética, o bom senso e, consequentemente, a fidelidade aos valores fundamentais do Evangelho. Sem isso, existe o risco de se passar a explorar a necessidade religiosa do povo, comercializando, também na animação vocacional, os “produtos sagrados”183.

171.      A animação vocacional não pode esquecer que a mídia contribui para a difusão e o conhecimento das diversas vocações, criando inclusive um clima propício para o seu acolhimento184. Quando o acesso aos grandes meios não for possível, o SAV poderá fazer uso dos recursos alternativos, os quais, muitas vezes têm um custo mais baixo e são mais fáceis de serem multiplicados185.

172.      Muitas vezes os projetos pensados não são concretizados por falta de pessoal disponível, mas também por falta de recursos financeiros. Estes são indispensáveis e necessários. Não há como desenvolver um bom projeto de animação vocacional, sem destinar para ele uma boa parte dos recursos disponíveis nas dioceses186. Por isso, o 1.º Congresso Vocacional do Brasil, com realismo, pediu que as atividades de animação vocacional fossem viabilizadas financeiramente, prevendo-se os recursos necessários187. Isso quer dizer que nos planejamentos das dioceses, das paróquias, das congregações, dos institutos, a animação vocacional, sendo prioridade, deve contar com uma boa porcentagem do orçamento previsto.

173.      Além do mais é preciso que se insista na necessidade de inversão de prioridades de gastos. O dinheiro da comunidade deve ser investido em atividades necessárias e fundamentais, como a animação vocacional, a catequese e a formação dos cristãos leigos e leigas. Estes têm o direito a receber uma formação integral que os coloque em condições de participar plenamente da vida e da missão da Igreja (cf. P, 832). A vitalidade de uma comunidade eclesial se mede também pelo destino que ela dá ao que arrecada dos fiéis. Por isso, é urgente questionar a forma como, tantas vezes, se faz uso do dinheiro da comunidade. Do mesmo modo é preciso insistir para que haja partilha (cf. 2Cor 9,1-15) entre as dioceses, paróquias e congregações para que se dê  um “testemunho justo de caridade eclesial”188.

 

PROPOSTAS PARA A EQUIPE VOCACIONAL LOCAL

1.   Antes da conclusão do Ano Vocacional (23 de novembro de 2003) realizar uma grande Assembléia com toda a comunidade. Fazer uma avaliação do Ano Vocacional.

2.   Considerando esta avaliação, tendo presente as propostas desta terceira parte do texto-base, traçar uma programação vocacional para 2004, tendo como objetivo principal a preparação para o 2.º Congresso Vocacional do Brasil (setembro de 2005).

3.   Pensar em estratégias para a divulgação desta programação e numa metodologia que envolva todas as comunidades, grupos, pastorais, movimentos nesta ação vocacional (ajudar a comunidade a ter uma “fisionomia vocacional”).


CONCLUSÃO

 

174.      A proposta do Mestre a Pedro e aos demais apóstolos foi muito concreta e provocadora: “Avança mais para o fundo, e ali lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4). Este Texto-Base quis nos mostrar como, aplicado ao Serviço de Animação Vocacional, isto significa mais coragem para “navegarmos por mares que ainda não conhecemos”. Em termos bem mais concretos, podemos afirmar que chegou a hora de passarmos a ações mais audaciosas que levem a animação vocacional a encontrar soluções novas para novas realidades e novos desafios.

175.      O Ano Vocacional de 2003 quer ser apenas o início de mais um período fecundo para o serviço vocacional da Igreja no Brasil. Temos, sem dúvida, a consciência da importância da dimensão vocacional para toda a Igreja. Desde o concílio Vaticano II até aqui muitas foram as conquistas, tantos os avanços e inúmeras as alegrias, especialmente nos últimos vinte anos. Mas nós somos um povo de caminheiros. Ao caminhar sempre deixamos para trás sinais de cansaço e de acomodação. Por isso, de vez em quando, como o profeta Elias (cf. 1Rs 19,5-8), precisamos refazer as nossas forças para retomarmos a caminhada com mais vigor e mais decisão.

176.      Além disso, independente do perigo da canseira e da estagnação, como cristãos e cristãs, somos convidados a estar sempre a caminho, em busca da morada que ainda “está para vir” (Hb 13,14), do novo céu e da nova terra (cf. Ap 21,1-4). Portanto, não nos é lícito parar e muito menos ceder aos medos e à tentação de desistir de buscar novos caminhos. Vale a pena, de vez em quando, recordar o lema do 1.º Congresso Vocacional: “Coragem! Levanta-te, Ele te chama!” (Mc 10,49b). Como Abraão somos convidados a deixar o que conhecemos e a ir em busca daquilo que o Senhor ainda vai nos mostrar (cf. Gn 12,1). A confiança no Emanuel, no Deus, que por seu Filho (Mt 28,20) e pelo Espírito (Rm 8,26-27) caminha sempre conosco, deve nos impulsionar e nos dar a ousadia cristã de olhar sempre para frente. A ousadia de acreditar que a Trindade Santa é capaz de fazer “novas todas as coisas” (Ap 21,5).

177.      Com este Ano Vocacional queremos dar início a um grande mutirão vocacional que concretize a proposta de João Paulo II para a Igreja deste começo de século e de milênio: estimular “todos os batizados e crismados a tomarem consciência da sua própria e ativa responsabilidade na vida eclesial” (NMI, 46). Um mutirão vocacional que faça da Igreja no Brasil uma verdadeira “ekklesía”, isto é, uma comunidade toda ela vocacionada e vocacional. Uma Igreja onde todos e todas fazem experiência do chamamento divino e são, ao mesmo tempo, pessoas que, em nome de Jesus, vão chamando a humanidade para participar do grande banquete da vida (cf. Lc 14,23) e da farta pesca (Lc 5,6-7). Uma comunidade onde a incorporação a Cristo, efetuada pelo Batismo, gere aquela “inesgotável pluralidade de carismas, serviços e ministérios”189 e faça dos cristãos e cristãs um povo apto e pronto a participar ativamente da vida eclesial e da construção do mundo novo sonhado por Deus.

178.      Cada Regional, Diocese, Paróquia ou Comunidade deve buscar, com muita criatividade, caminhos novos para dinamizar a animação vocacional. Pode-se começar com o fortalecimento e a revitalização do que já acontece no Brasil. Por exemplo: 1) O Mutirão para a superação da miséria e da fome, enquanto opção pela vida, nossa vocação primeira; 2) A criação de grupos de reflexão em todos os ambientes (escolas, universidades, centros urbanos, pequenas cidades, periferias, zonal rural, etc.) a partir da inspiração do Projeto “Ser Igreja no Novo Milênio”; 3) A Campanha da Fraternidade, com a sua preocupação pela vida; 4) Dia Mundial de Oração pelas Vocações (4.º Domingo da Páscoa), momento forte para congregar a Igreja e pedir operários e operárias para a Messe; 5) Mês Vocacional; 6) Mês da Bíblia; 7) Grito dos Excluídos; 8) Mês Missionário; 9) Dia Mundial das Missões;  10) Dia Nacional da Juventude (último domingo de outubro), que em 2003 terá como lema “Lancemos as redes em águas mais profundas”; 11) Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas; 12) O diálogo ecumênico, ressaltando nossa vocação para a comunhão e a unidade; 13) Outras atividades regionais, diocesanas e locais.

179.      Este evento do Ano Vocacional quer ser a grande porta de entrada para o 2.º Congresso Vocacional que realizaremos em setembro de 2005. Portanto, os três próximos anos serão muito intensos e, com certeza, trarão muitas graças e novo dinamismo para a nossa animação vocacional. E que tudo isso termine “frutificando no compromisso de um amor ativo e concreto a cada ser humano, pois isso é o que, de fato, qualifica e dignifica “a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral” (NMI, 49).

180.      Todavia, precisamos ser bem realistas. Não devemos esquecer que temos ainda “um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,7), avançando para “águas mais profundas” (Lc 5,4). Somos chamados a alimentar a nossa existência cristã, a fim de que tenhamos a força necessária para prosseguir a viagem. Por isso, como comunidade vocacionada e reunida pela Trindade, queremos a Ela dirigir a nossa prece:

 

Ó Trindade Amada, Pai, Filho e Espírito Santo,

Vós chamais os homens e as mulheres

para serem santos e santas, no amor.

Fazei brotar em nossas comunidades

aquela variedade de vocações, de serviços e de ministérios,

segundo a riqueza da graça recebida no Batismo.

Que a vossa Igreja, Povo de Deus, Assembléia dos chamados,

seja fiel à sua vocação.

Animai os jovens vocacionados e vocacionadas.

Dai, aos cristãos leigos e leigas, coragem, audácia e firmeza, para que,

no cotidiano da vida, construam a justiça, a solidariedade e a paz.

Às irmãs e aos irmãos de vida consagrada,

dai coerência e transparência, para serem, nesta terra,

sinal do amor e da ternura da Trindade.

Olhai para os nossos diáconos;

sejam eles imagens vivas do Cristo Servo.

Que os nossos padres e bispos,

segundo o exemplo de Cristo, Bom Pastor,

cuidem, com carinho e amor,

de todas as pessoas a eles confiadas.

Fazei, enfim, que todos os batizados,

sob o olhar carinhoso da Mãe Aparecida, a vocacionada do Pai,

com renovado ardor missionário, avancem, sem medo,

pelos caminhos da justiça e da solidariedade,

a serviço da vida e da esperança, na busca do Reino definitivo.

Amém.


ABREVIATURAS E SIGLAS

 

2.º CIV         Documento Conclusivo do 2.º Congresso Internacional das Vocações (Roma, 1981).

CNBB  Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

CVB -     Documento Final do 1.º Congresso Vocacional do Brasil (Itaici, 1999).

DPVIP          Pontifícia Obra das Vocações Eclesiásticas, Desenvolvimento da Pastoral das Vocações nas Igrejas Particulares (Roma, 1992).

GAV -    Grupo de Assessoria Vocacional (SVM-CNBB).

GS -       Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo de hoje (Concílio Vaticano II).

IPV -      Instituto de Pastoral Vocacional

LG      Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja (Concílio Vaticano II).

NMI    Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, no início do novo milênio (João Paulo II).

OT      Decreto Optatam Totius sobre a formação dos presbíteros (Concílio Vaticano II).

P -          Conclusões da Conferência de Puebla (1979).

PDV    Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis sobre a formação dos presbíteros (João Paulo II).

PV      Pastoral Vocacional

RMi -     Encíclica Redemptoris Missio sobre a validade permanente do mandato missionário (João Paulo II).

SAV -     Serviço de Animação Vocacional.

SC -       Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (Vaticano II).

SD      Conclusões da Conferência de Santo Domingo (1992).

SVM -    Setor Vocações e Ministérios (CNBB)

VC      Exortação Apostólica Vita Consecrata sobre a vida consagrada e a sua missão na Igreja e no Mundo (João Paulo II).

 


NOTAS:

 

1    Recordamos aqui: 1) o Projeto “Ser Igreja no Novo Milênio”, que nos convida a retomar a experiência das primeiras comunidades cristãs; 2) o Mutirão de superação da miséria e da fome, que lembra aos cristãos e cristãs a necessidade de ouvirmos os gritos dos excluídos e participarmos dos seus esforços em busca da libertação; 3) a Campanha da Fraternidade de 2003, a qual, manifestando amor e respeito pelos mais idosos, reafirma a necessidade da “vida, dignidade e esperança para todos”.

2    Neste texto iremos usar três expressões para designar o cuidado pelas vocações. A primeira será Serviço de Animação Vocacional (SAV), entendendo com isso a ação de toda a comunidade em favor das vocações (PDV, 41a). A segunda expressão será Pastoral Vocacional (PV), bastante conhecida, mas aqui usada somente para indicar o esforço das Igrejas locais no sentido de que a dimensão vocacional esteja sempre presente em todos os âmbitos da pastoral orgânica das comunidades; trata-se da organização e estruturação do SAV, responsabilidade que compete em primeiro lugar ao bispo e ao seu presbitério ((PDV, 41). Por fim, a terceira expressão a ser usada será Animação Vocacional para falar, ao mesmo tempo, do SAV e da PV.

3    Cf. PDV, 41; CNBB, Vida e ministério do presbítero – Pastoral Vocacional, Paulinas, São Paulo, 1981, n.º 244.

4    Cf. NMI, 46; CNBB, Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, Paulinas, São Paulo, 1999.

5    NMI, 46; cf. CNBB, Vida e ministério do presbítero, n.º 244.

6    Cf. CNBB, Guia pedagógico de pastoral vocacional, Paulus, São Paulo, 1983, pp. 8-9; ID., A pastoral vocacional no Brasil. História e perspectivas, Paulus, São Paulo, 1987, pp. 22-23; OLIVEIRA, J. L. M. DE, Igreja: Povo de Servidores – O Serviço de Animação Vocacional da CNBB, em Encontros Teológico 17 (2002), n.º 32/1, pp. 119-136.

7    Cf. LORSCHEITER, J. I., Jubileu de Ouro da CNBB, em Comunicado Mensal 560 (abril de 2002), pp. 380-381; QUEIROGA, G. F. DE, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Comunhão e Corresponsabilidade, Paulus, São Paulo, 1977, pp. 170-177.

8    Por Pastoral Orgânica, ou Pastoral de Conjunto, entendemos aqui o esforço da Igreja de um país, de uma região ou de uma diocese na busca de uma “unidade dinamizadora”, com o objetivo de promover uma ação evangelizadora que seja ao mesmo tempo eficaz e permanente. Isso inclui princípios orientadores, objetivos, opções, estratégias, iniciativas e práticas comuns, assumidas por todos (cf. P, 1222). A Pastoral Orgânica é uma ação intencional, consciente e planejada. Requer um processo de participação em todos os âmbitos das comunidades e das pessoas, além de uma metodologia capaz de ajudar não só na reflexão sobre a realidade, mas também sobre o uso racional dos meios mais aptos para se atingir o objetivo (cf. P, 307). Ela consiste basicamente num trabalho de coordenação das tarefas dos agentes e das instituições, por meio de um organismo competente – o conselho pastoral. Sua função principal é planejar e avaliar a ação evangelizadora, vendo as atividades e as situações, levando a uma melhor utilização dos recursos, modificando, suprimindo ou criando novas estratégias para se atingir o objetivo (cf. P, 1049; BRIGHENTI, A., Reconstruindo a Esperança. Como planejar a ação da Igreja em tempos de mudança, Paulus, São Paulo, 2000).

9    Apesar de ter visto a questão da animação vocacional mais na perspectiva das “vocações sacerdotais” (SD, 79 e 81), Santo Domingo, sob o impulso da palavra de João Paulo II, convidou a Igreja da América Latina e do Caribe a “estimular as vocações provenientes de todas as culturas presentes em nossa Igrejas particulares” (SD, 80). A este respeito veja-se OLIVEIRA, J. L. M. DE, A vocação em Santo Domingo, em Espírito 54 (janeiro/março de 1993), pp. 12-29.

10   Cf. P, nn. 852-891.

11   Cf. ibid., nn. 1128-1293.

12   CNBB, Vida e ministério do Presbítero, n.º 258. Convém não esquecer que a celebração do Ano Vocacional em 1983 foi certamente motivada pelo 2.º Congresso Internacional das Vocações, realizado em Roma no período de 10 a 16 de maio de 1981, tendo como tema: “Desenvolvimento da Pastoral das Vocações nas Igrejas Particulares, experiências do passado e programas para o futuro”.

13   Cf. CNBB, Vida e ministério do Presbítero, n.º 257.

14   Cf. Ibid., n.º 259.

15   Cf. ID., Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil. Diretrizes Básicas, Paulinas, São Paulo, 1995, n.º 27.

16   Atualmente a coleção já conta com 38 cadernos e está sob a responsabilidade do Instituto de Pastoral Vocacional e das Edições Loyola (São Paulo).

17   Citado na nota 15.

18   Citado na nota 4.

19   Cf. CNBB, 1.º Congresso Vocacional do Brasil. Documento Final, Brasília, 1999; ID., Memórias do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, Brasília, 2000.

20   As questões tinham presente as indicações do parágrafo 18 do Documento Final do 1.º Congresso Vocacional do Brasil.

21   No tocante aos temas a serem aprofundados o questionário seguiu o esquema indicado pelo parágrafo 19 do Documento Final do 1.º Congresso Vocacional do Brasil.

22   Para a indicação dos desafios o questionário da pesquisa considerou o parágrafo 21 do Documento Final do 1.º Congresso Vocacional do Brasil

23   Cerca de 14,72% das respostas apontam a afetividade, a sexualidade do(a) animador(a) como um desafio a ser enfrentado. O testemunho dos que fazem animação vocacional também foi considerado um desafio por cerca de 4,67% das respostas.

24   Cf. Lc 24,13-35; CNBB, Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, n.º 4.

25   Cf. SANTAYANA M., Um tempo intolerável, em Correio Brasiliense, 25/04/2001, p. 5.

26   A respeito da globalização veja-se SANTOS M., Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal, Record, Rio de Janeiro/São Paulo, 20015.

27   Ibid., p. 23.

28   Sobre estas e outras questões da globalização veja-se MO SUNG, J., Cinismo e solidariedade na globalização, em Espaços 8/1 (2000), pp. 37-47.

29   Cf. ibid., pp. 39-43.

30   SANTOS, M., Por uma outra globalização, p. 56.

31   Área de Livre Comércio das Américas. A respeito da ALCA veja-se CAMPANHA NACIONAL CONTRA A ALCA (Org.), Soberania sim, Alca não! Análises e documentos, Expressão Popular, São Paulo, 2002.

32   Cf. SETOR PASTORAL SOCIAL – CNBB, O que é Pastoral Social?, Loyola, 2001, pp. 12-15.

33   Cf. CNBB, Exigências evangélicas e éticas de superação da miséria e da fome, Paulinas, São Paulo, 2002, nn. 11-17.

34   Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Os desafios da globalização para a pastoral vocacional, em Espírito 87 (dezembro de 2001), pp. 5-13.

35   Cf. MO SUNG, J., Cinismo e solidariedade na globalização, p. 42.

36   Cf. SANTOS M., Por uma outra globalização, pp. 141-174.

37   Entre as expressões mais significativas deste movimento mundial convém destacar a realização dos Fóruns Sociais Mundiais. Existe já a convicção de que estes eventos estão se tornando verdadeiros instrumentos privilegiados de persuasão, novos paradigmas de ação política transformadora mundial. Além disso, “vemos emergir, em meio a sinais sombrios, um crescimento da consciência dos Direitos Humanos; a sede de participação, sobretudo das mulheres e dos jovens; a luta contra toda a forma de discriminação e um maior reconhecimento do pluralismo étnico e cultural; o respeito ao ecossistema e à vida” (CNBB, Eleições 2002. Propostas para reflexão, Paulinas, São Paulo, 2001, n.º 18).

38   Ibid., n.º 20.

39   Cf. ibid., n.º 21.

40   Cf. ibid., n.º 22.

41   Cf. CNBB, Exigências evangélicas e éticas de superação da miséria e da fome, nn. 58-65. Lembramos, entre outras iniciativas, o grito dos excluídos; o abaixo-assinado contra a corrupção eleitoral, que deu origem à Lei n.º 9.840; o plebiscito sobre o pagamento da dívida externa; o mutirão para a superação da fome e da miséria e o plebiscito sobre a ALCA.

42   Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Pastoral Vocacional e cultura urbana. Desafios e perspectivas de interação, IPV/Loyola, São Paulo, 2000, pp. 65-77.

43   Sobre o impacto da urbanização no processo de evangelização veja-se CNBB, Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil 1999-2002, Paulinas, São Paulo, 1999, pp. 75-76; LIBANIO, J. B., As lógicas da cidade. O impacto sobre a fé e sob o impacto da fé, Loyola, São Paulo, 2001.

44   Cf. CNBB, Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil 1999-2002, nn. 134-147.

45   CVB, n.º 18.

46   CVB, n.º 7.

47   CVB, n.º 21.

48   CVB, n.º 26.

49   Cf. CVB, nn. 4-5.

50   CNBB, Vida e ministério do presbítero, nn. 133-134

51   A este propósito veja-se CNBB-SVM-GAV, Ministerialidade da Igreja e Ministérios. Conclusões do 15.º Encontro Nacional de Pastoral Vocacional, Brasília, 2001.

52   CVB, n.º 4.

53   Cf. Puebla, nn. 852-853; OLIVEIRA, J. L. M. DE, Teologia da Vocação. Temas fundamentais, IPV-Loyola, 1999, pp.19-46.

54   CNBB, Vida e ministério do presbítero, n.º 155.

55   CVB, n.º 5.

56   CNBB, Guia pedagógico de pastoral vocacional, p. 52.

57   Cf. SD, 78-84; OLIVEIRA, J. L. M. DE , A vocação em Santo Domingo, pp. 15-16.

58   CVB, n.º 5.

59   Cf. MAIA, G. L., A caminhada da Pastoral Vocacional no Brasil, em Espírito 70 (setembro de 1997), pp.20-28.

60   Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Pastoral Vocacional e Cultura Urbana, pp. 83-84.

61   CVB, n.º 5.

62   2.º CIV, n. º 38.

63   Cf. CVB, n.º 11.

64   Cf. NASINI, G., Um espinho na carne. Má conduta e abuso sexual por parte de clérigos da Igreja Católica no Brasil. Visão geral das questões relacionadas e pertinentes, Santuário, Aparecida, 2001.

65   CVB, n.º 6.

66   CVB, n.º 6.

67   No âmbito da animação vocacional “permanece aberta a questão feminina, que não encontrou ainda uma solução verdadeira, de um modo particular nos nossos ambientes de Igreja. Além disso, entrava tudo uma falta de agilidade, que muitas das nossas estruturas, ao menos à primeira impressão, apresentam e que contrasta nitidamente com as aspirações que as jovens alimentam, não só de independência, de realização de si, mas também de simplicidade e de fraternidade nas relações, pelo que só algumas é que conseguem ultrapassar a fachada exterior e colher-lhe os valores. A questão acerca da mulher e da Igreja deixa fora uma parte das jovens” (DPVIP, n.º 82), as quais não aceitam o modo como, muitas vezes, a instituição eclesial trata a vocação feminina.

68   Cf. MEYER-WILMES, H., Da variedade de ofícios numa Igreja pós-moderna, em Concilium 281 (1999/3), pp. 78-100. Aqui p. 94.

69   Com essa expressão entende-se falar da atitude de algumas congregações religiosas e de alguns seminários diocesanos que costumam reduzir a animação vocacional ao simples “recrutamento” de candidatos e candidatas para os seus quadros. Tal recrutamento é feito quase sempre através de um marketing bem elaborado, pelo qual tenta-se convencer as pessoas, inclusive por meio das vantagens oferecidas.

70   Cf. CVB, nn. 6-7.

71   MAIA, G. L., Vinde e vede. Uma Leitura Vocacional do Quarto Evangelho, IPV, São Paulo, 2000, pp. 95-107.

72   Cf. GUIMARÃES, P. B., Os sacramentos como atos eclesiais e proféticos. Um contributo ao conceito dogmático de sacramento, à luz da exegese contemporânea, Editrice Pontificia Università Gregoriana, Roma, 1998, pp. 350-359.

73   Cf., FEUILLET, A., Le baptême de Jesus, em Revue Biblique 71 (1964), 321-352; La personalité de Jesus entrevue a partir de sa soumission au rite de repentance du précurseur, em Revue Biblique 77 (1970), 38-39.

74   “Cristo é iluminado no batismo, recebemos com ele a luz; Cristo é batizado, desçamos com ele às águas para com ele subirmos” (Cf. Sermões de São Gregório Nazianzo, Liturgia das Horas, Vol. 1, p. 574). Sobre o efeito salvífico do seu batismo, na festa da Epifania, a antífona do Cântico evangélico das Vésperas, diz o seguinte: “Recordamos neste dia três mistérios: Hoje a estrela guia os Magos ao presépio. Hoje a água se fez vinho para as bodas. Hoje Cristo no Jordão é batizado para salvar-nos” (Cf. Liturgia das Horas, Vol. 1, p. 519).

75   Veja a propósito o comentário a este versículo (Mc 1,11), feito pela Bíblia Sagrada, tradução da CNBB.

76   Cf. CVB, n.º 11.

77   OÃO PAULO II, Christifideles Laici, n.º 12.

78   Cf. GOEDERT, V. M., Batismo e missão, em SILVA, J. A. – SIVINSKI, M., Liturgia: um direito do povo, Vozes, Petrópolis, 2001, pp. 96-108.

79   O Batismo de Jesus foi um gesto tão significativo para ele e para toda comunidade cristã que foi recordado pelos quatro evangelistas (cf. Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34).

80   Cf. CVB, n.º 11.

81   Catecismo da Igreja Católica, n.º 1213.

82   Cf. CNBB, Hoje a salvação entrou nesta casa. O Evangelho de Lucas, Paulinas, São Paulo, 1999, pp. 74-76; MAIA, G. L., Vocações em Lucas. Uma leitura Vocacional do Evangelho de Lucas, IPV, São Paulo, 19982; PIKAZA, J., A teologia de Lucas, Paulinas, São Paulo, 1978, pp. 48-55; LANCELLOTTI, A. e BOCCALI, G., Comentário ao Evangelho de São Lucas, Vozes, Petrópolis, 1979, pp. 75-76; STRÖGER, A., O Evangelho Segundo Lucas, Vozes, Petrópolis, 1973, pp. 155-159.

83   Seguimos a tradução da CNBB.

84   Lucas apresenta a árvore genealógica de Jesus, mencionando 77 nomes que indicam a universalidade da missão do “filho de Adão, filho de Deus” (Lc 3,23-38).

85   O título com o qual Pedro trata Jesus, chamando-o de “Mestre” no lugar de “Rabi”, é uma característica de Lucas. Note-se ainda que, diferentemente do termo “Rabi”, usado pelos demais evangelistas, o substantivo grego, adotado por Lucas para indicar Jesus como “Mestre”, aponta para uma fé mais profunda na pessoa de Cristo.

86   O título “Senhor”, em grego Kyrios, na época de Jesus, era dado aos deuses e aos reis. Nas comunidades cristãs primitivas parece ter sido usado inicialmente como invocação litúrgica ou como aclamação para manifestar a fé no Cristo ressuscitado, único Senhor da história (cf. Fl 2,11; Rm 10,12; MACKENZIE, Dicionário Bíblico, Paulinas, São Paulo, 1984, pp. 862-864).

87   Nesta cena de Lucas o Mestre fala de “pescadores de homens”, enquanto no encontro com a mulher samaritana, a beira do poço de Jacó, ele adotará uma outra expressão compreensível naquele contexto: “água viva” (Jo 4, 10).

88   “Somente quando acontece a partilha, compreende-se a situação: a messe é grande, os operários são poucos” (DI CARLUCCIO, L., Aníbal Di Francia precursor e mestre da moderna pastoral vocacional, EAR, São Paulo, 2001, p. 24).

89   Talvez, o gesto de subir na barca de Pedro, deixando a outra barca parada, seja uma indicação da eleição de Pedro, que logo será chamado para tornar-se “pescador de homens” (Lc 5,10). Na tradição cristã, a expressão “a barca de Pedro”, assinala a Igreja que cumpre a sua missão de testemunhar e anunciar Jesus Cristo. “A Igreja é como uma grande barca que navega pelo mar deste mundo” (Das Cartas de São Bonifácio, bispo e mártir, século VIII, em Liturgia das Horas, volume III, p. 1340).

90   É interessante também observar neste texto a seqüência de plurais: “trabalhamos” (Lc 5,5), “fizeram – apanharam” (Lc 5,6) e “fizeram – vieram – encheram” (Lc 5,7). Esses termos no plural podem indicar a sociedade pesqueira da qual Pedro fazia parte, bem como o companheirismo e a solidariedade na tarefa de pescar. São pessoas que sabem trabalhar juntas ajudando-se umas as outras e vivendo fraternalmente, condições essas indispensáveis para a evangelização e, de modo particular, para a animação vocacional.

91   O verbo no particípio presente, que permite traduzir a expressão “pescador de homens” por “capturar homens para a vida”, ou ainda “pescar vivos” é outra exclusividade desse evangelista natural de Antioquia, habitante do mundo mediterrâneo, que não costuma denominar o lago de Genesaré como o “mar da Galiléia”.

92   Alguns padres (escritores) da Igreja primitiva vêem nesta afirmação de Pedro – “sou um pecador” (Lc 5,8) – um aceno às três negações que esse discípulo fará de Jesus na hora da sua prisão (Lc 22,54-62).

93   CNBB, Formação dos presbíteros da Igreja no Brasil, n.º 43.

94   Cf. ibid., nn. 41-43.

95   “Também os leigos são ‘operários’ da messe” (DI CARLUCCIO, L., Aníbal Di Francia…, pp. 33-36).

96   Cf. DPVIP, n.º 30.

97   “Formar-se-á uma estrutura eficiente, mas não homens eficazes” (MANENTI, A., Vocação, Psicologia e Graça, Loyola, São Paulo, 1990, p. 22).

98   CVB, n.º 11.

99   Cf. NMI, nn. 30-31. 46-47.

100    CVB, n.º 10.

101    Ibidem; cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Teologia da Vocação, pp. 26-33.

102    CVB, n.º 8.

103    MANENTI, A., Vocação, Psicologia e Graça, p. 79.

104    “Percebi e reconheci que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e lugares; numa palavra, o amor é eterno. Então, delirante de alegria, exclamei: Ó Jesus, meu amor, encontrei afinal minha vocação: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará” (Trecho da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Liturgia das Horas, IV, p. 1333).

105    Cf. o livro do Cântico dos Cânticos; Jr 20,7; Os 2,16.

106    OLIVEIRA, J. L. M. DE , “Rumo ao Novo Milênio”. Aspectos vocacionais, em Espírito 66 (abril/setembro de 1996), p. 15.

107    CVB, n.º 9.

108    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Pastoral Vocacional e Cultura Urbana, pp. 65-77.

109    Cf. CNBB, Guia pedagógico de pastoral vocacional, pp. 26-29.

110    CVB, n.º 9.

111    CONIC, Dignidade Humana e Paz. Novo Milênio sem Exclusões. Campanha da Fraternidade 2000 Ecumênica. Texto-Base, Salesiana, São Paulo, n.º 62.

112    CVB, n.º 12.

113    Cf. Mt 11,2-6; Lc 4,14-21.

114    Desenvolvida posteriormente no livro de LIBANIO, J. B., Cenários da Igreja, Loyola, 1999.

115    Cf. CVB, n.º 2.

116    CVB, n.º 3.

117    Ibidem.

118    CNBB, Vida e ministério do presbítero, n.º 244.

119    Ibid., n.º 254.

120    CVB, n.º 5.

121    CVB, n.º 11.

122    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Teologia da Vocação, pp. 59-70.

123    Vale a pena ler com muita atenção o pequeno artigo de BLANK, R. J., O sagrado e os mecanismos do mercado neoliberal, em Vida Pastoral 212 (maio/junho de 2000), pp. 9-15.

124    Cf. CNBB, Espiritualidade sem medo, Salesiana Dom Bosco, São Paulo, 1996.

125    A este respeito veja-se OLIVEIRA, J. L. M. DE, Espiritualidade do animador e da animadora vocacional, em Espírito 83 (dezembro de 2000), pp. 2-17.

126    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Pastoral Vocacional e cultura urbana, p. 31-45.

127    Cf. SD, 228-286; CNBB, Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil 1999-2002, nn. 203-221; CHITTISTER, J., Fogo sob as cinzas. Uma espiritualidade da vida religiosa contemporânea, Paulinas, São Paulo, 1998, pp. 35-36; BRIGHENTI, A., Por uma evangelização inculturada. Princípios pedagógicos e passos metodológicos, Paulinas, São Paulo, 1998.

128    CNBB, Vida e ministério do presbítero, n.º 249.

129    CVB, n.º 22.

130    “Sensibilizada pela perda do monopólio absoluto da razão, a modernidade abre agora amplo espaço para o Sagrado. Este entra precisamente como resposta aos maiores problemas da existência: seu sentido, existência do bem, do mal, morte, sofrimento, Transcendência” (LIBANIO, J. B., Fascínio do Sagrado, em Vida Pastoral 212 [maio/junho de 2000], p. 7).

131    CVB, n.º 15.

132    “O Cristianismo vigia continuamente essas ofertas religiosas para que não se deturpem” (LIBANIO, J. B., Fascínio do Sagrado, p. 7).

133    A oração se “não promover a caridade não é oração. O movimento do orante deve ser para fora, na direção das messes maduras, de quantos esperam ser promovidos à vida da graça, ao justo bem estar, à dignidade social. A oração é, por natureza, dinâmica. Se não move, não é oração” (DI CARLUCCIO, L., Aníbal Di Francia…, p. 27).

134    CVB, n.º 15.

135    CVB, nn. 16-17.

136    CVB, n.º 16.

137    Cf. 2.º CIV, n.º 23.

138    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, A oração pelas Vocações, em Con-vocação 38 (maio/junho 2000), pp. 2-4.

139    CVB, n.º 18.

140    Cf. CNBB-SVM-GAV, Ministerialidade da Igreja e Ministérios, pp. 20-24.

141    Seria o caso de realizar nos Regionais e nas Dioceses Simpósios de Estudo sobre esta temática, tomando como referencial o documento da CNBB, Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas e as Conclusões do 15.º Encontro Nacional de Pastoral Vocacional.

142    CVB, n.º 18.

143    CVB, n.º 19.

144    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, “Limpeza de sangue”: exemplos de preconceitos vocacionais, em Espírito 88 (março de 2002), pp. 6-20.

145    CNBB, Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil. Diretrizes básicas, Paulinas, São Paulo, 1995, n.º 29.

146    CNBB, Guia pedagógico de pastoral vocacional, p. 63.

147    Cf. DPVIP, n.º 58.

148    CVB, n.º 21.

149    CNBB, Com adultos, catequese adulta. Texto-base elaborado por ocasião da 2.ª Semana Brasileira de Catequese, Paulus, São Paulo, 2001, n.º 25.

150    Veja-se a este propósito OLIVEIRA, J. L. M. DE , Novo itinerário vocacional, em Espírito 65 (janeiro/março de 1996), pp. 12-21; MANENTI, A., Vocação, Psicologia e Graça, p. 63.

151    Cf. CNBB, Segunda Semana Brasileira de Catequese. Catequese com Adultos, Paulus, São Paulo, 2002, pp. 172-253.

152    Cf. CVB, 22-46.

153    CVB, n.º 23.

154    “Até quando as comunidades diocesanas e paroquiais, as famílias, as associações, não sentirem o problema vocacional como próprio, será difícil uma solução satisfatória. Na maioria das paróquias a pastoral vocacional é circunscrita apenas aos momentos fortes oferecidos pela Igreja universal e nacional” (DPVIP, n.º 60).

155    Cf. CVB, n.º 23b.

156    Muitas das atuais vocações são “movidas pelo lado emocional, participando da fragilidade de tais experiências. Por isso, com a mesma facilidade com que entram no seminário ou na vida religiosa, afastam-se depois de terem saciado parte da sede religiosa. No fundo, vive-se antes uma experiência religiosa que uma experiência propriamente de Deus” (LIBANIO, J. B., Cenários da Igreja, p. 60).

157    Cf. PITTA, M., e VALLE, R., Situação dos seminaristas maiores religiosos no Brasil, em CNBB, Situação e vida dos seminaristas maiores no Brasil [II], Paulus, São Paulo, 1995, p. 160. O decreto legislativo sobre os Seminaristas egressos, aprovado pela 35.ª Assembléia Geral dos Bispos, em 1997, sendo posteriormente ratificado pela Congregação para os Bispos, não deixa dúvidas quanto a isso (Cf. Comunicado mensal n.º 517 [dezembro de 1997], pp. 2540-2546). Este decreto encontra-se também no site da CNBB.

158    CVB, n.º 24b; CNBB, Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, nn. 175-193.

159    Ibid., nn. 186-188. Muitas vezes nem será preciso inventar coisas novas, mas apenas conhecer e apoiar iniciativas desenvolvidas pelos cristãos leigos e leigas das comunidades.

160    CVB, n.º 27.

161    Cf. OLIVEIRA, J. L. M. DE, Teologia da Vocação, pp. 103-114.

162    JOÃO PAULO II, Ecclesia in America, n.º 68.

163    “Desejaria que todos e cada um de nós pudesse visitar, pelo menos em espírito, a própria pia batismal, mergulhar nela a nossa cabeça e redescobrir a missionariedade do próprio batismo. Eu sou batizado? Então, devo ser missionário. Se eu não sou missionário, então não sou cristão” (DOM PEDRO CASALDÁLIGA, em Dimensão Missionária – CNBB, Animação e organização missionárias, Brasília, 2001, p. 7).

164    Cf. RMi, nn. 31-40; P, 368; CNBB, Igreja: comunhão e missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura, Paulinas, São Paulo, 1988, nn. 113-131; ID., Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil 1999-2002, nn. 245-253.

165    A espiritualidade missionária consiste, “antes de mais nada, no viver em plena docilidade ao Espírito, e em deixar-se plasmar interiormente por ele, para se tornar cada vez mais semelhante a Cristo” (RMi, 87).

166    A expressão “desclassamento” é usada pelo sociólogo Pedro Assis Ribeiro de Oliveira para definir o fenômeno do “distanciamento do seminarista em relação à sua família e ao seu meio social de origem” (OLIVEIRA, P. A. R. DE, Seminaristas maiores: um questionamento sobre sua socialização, em CNBB, Situação e vida dos seminaristas maiores no Brasil [I], Paulus, São Paulo, 1984, pp. 60-64).

167    Ibid., p. 63. Cf. VALLE, E., Observações psicopedagógicas sobre a pesquisa de 1993, em CNBB, Situação e vida dos seminaristas maiores no Brasil (II), p. 49; cf. ANTONIAZZI, A.. Os Seminaristas Maiores: comparação dos resultados das pesquisas de 1982 e 1993, em ibid., pp. 29-33.

168    CVB, n.º 30.

169    CVB, n.º 31.

170    2.º CIV, n.º 39.

171    Ibidem.

172    CVB, n.º 33.

173    JOÃO PAULO II, Ecclesia in America, n.º 55.

174    2.º CIV, nn. 4.26-28.39 e 42. Dentro desta perspectiva podem ser incluídas as propostas 34 e 35 do Documento Final do 1.º Congresso Vocacional do Brasil que falam da família como “sementeira de vocações” e da importância da Pastoral do Adolescente para a animação vocacional. O mesmo diga-se das propostas contidas nos números 36 a 38.

175    CVB, n.º 37.

176    CVB, n.º 40.

177    Cf. 2.º CIV, nn. 19-25.

178    ALVARIÑO, G. V., Os que são chamados. Sugestões para uma pastoral vocacional, Paulinas, São Paulo, 1999, p. 170; cf. DPVIP, n.º 51.

179    Cf. 2.º CIV, 19. Neste sentido, permanece um verdadeiro desafio para a pastoral vocacional o fenômeno das milhares de comunidades cristãs sem a celebração eucarística dominical. Sendo o chamamento divino uma graça que se recebe “no altar” (Ibidem), isto é, a partir da celebração do memorial da morte e ressurreição do Senhor, torna-se difícil o surgimento de vocações, especialmente para o ministério ordenado, lá onde não há assembléia eucarística.

180    CVB, n.º 42.

181    Já o papa Paulo VI, de forma profética, lembrava, em 1975, que a Igreja deve sentir-se culpada diante de Deus quando não lança mão desses meios potentes no seu serviço de evangelização (PAULO VI, Evangelii nuntiandi, n.º 45). João Paulo II tem insistido muito nesta questão. Ele considera a mídia como o primeiro areópago dos tempos modernos (RMi, n.º 37).

182    ID., Ecclesia in America, n.º 72.

183    Cf. BLANK, J., O sagrado e os mecanismos do mercado neoliberal, pp. 10-12.

184    2.º CIV, n.º 60.

185    Cf. DPVIP, n.º 91.

186    Cf. G. RUSSOLILLO, Voi dunque pregate così: “Padre nostro…”, Edizioni Vocazioniste, Roma, 1987, p. 185.

187    Cf. CVB, n.º 46.

188    2.º CIV, n.º 61.

189    CNBB, Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, n.º 79.

 

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APRESENTAÇÃO

 

            A realização do 1.º Congresso Vocacional do Brasil, de 1 a 5 de setembro de 1999, foi, sem dúvida alguma, um dos acontecimentos mais significativos da Igreja no nosso país neste final de século. Tal evento constituiu-se num marco referencial para o serviço de animação vocacional no início do próximo milênio.

            Os congressistas, vindos de todas as partes do Brasil, com muita coragem e entusiasmo, fizeram uma avaliação da nossa caminhada nestes últimos 50 anos. A partir desta avaliação, elaboraram indicações e pistas muito concretas para a pastoral vocacional dos próximos anos, sintetizadas no Documento Final aprovado no último dia do congresso.

            Tenho  a imensa alegria de apresentar aos animadores e animadoras vocacionais de todo o Brasil este precioso texto. Estou certo de que ele será um instrumento fecundo nas mãos daqueles e daquelas que foram “chamados para chamar”. Desejo que  este documento provoque uma grande reflexão e leve a ações corajosas em favor da pastoral vocacional. Que, a partir do contato com ele, possam surgir muitas iniciativas capazes de dinamizar aquele que, com certeza, é um dos mais importantes elementos da evangelização da Igreja.

            A messe continua sendo grande e o número dos trabalhadores e trabalhadoras permanece insuficiente (cf. Lc 10,2). Por outro lado, percebemos que “os campos já estão dourados para a colheita” (Jo 4,35). Faço votos de que este nosso texto, planta fecunda cultivada pelo labor dos participantes do Congresso Vocacional, possa produzir muitos frutos para as nossas Igrejas particulares. Que ele ressoe nos corações generosos dos discípulos e discípulas de Jesus, de modo que muitas pessoas possam responder com prontidão ao chamado do Senhor, dizendo: “Aqui estou. Envia-me!” (Is 6,8).

 

Brasília, 07 de novembro de 1999.

Solenidade de todos os Santos e Santas

DOM ANGÉLICO SÂNDALO BERNARDINO

Bispo Auxiliar de São Paulo

Membro da Comissão Episcopal de Pastoral

Responsável pelo Setor “Vocações e Ministérios” da CNBB

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1º CONGRESSO VOCACIONAL DO BRASIL

Itaici, Indaiatuba (SP)

1º a 05 de setembro de 1999

 

 

 

“Coragem! Levanta-te, Ele te chama!”

 (Mc 10,49b)

Vocações e Ministérios para o Novo Milênio

 

Rogai ao Senhor da messe…” (Lc 10,2).

 

 

 

I. CONGRESSO VOCACIONAL DO BRASIL

Antes de modelar-te no seio de tua mãe, antes de saíres do seu ventre, eu te conhecia;

eu te consagrei; eu faço de ti um profeta para as nações” (Jr 1,5).

1.       Somos 400 animadores e animadoras da pastoral vocacional (leigas, leigos, seminaristas, consagrados, consagradas, diáconos, padres e bispos) na Igreja de Jesus Cristo, vindos de todas as partes do  Brasil para realizar em Itaici, município de Indaiatuba (SP), de 1º a 5 de setembro de 1999, o 1º Congresso Vocacional. Motivados pela experiência da caminhada da pastoral vocacional no nosso País, de modo particular nestes últimos 50 anos, provocados e fortalecidos pela riqueza da síntese do estudo do Texto-base do Congresso, feito com entusiasmo nos diversos Regionais, trabalhamos nesses dias com muito ânimo e alegria.

 

II. A DIVERSIDADE DE CENÁRIOS ECLESIAIS

 ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho” (Mc 10,52b).

2.       Na proximidade do terceiro milênio da era cristã, vivemos tempos de mudanças rápidas e profundas que influenciam o íntimo das pessoas e instituições, exigindo redefinições a cada novo momento da história. A Igreja, enquanto instituição humana, também experimenta este processo de mudanças que se manifesta de diferentes modos, com implicações na vida das pessoas e dos grupos, bem como na sua forma de evangelizar. Descortina-se a presença de diversos cenários eclesiais para as próximas décadas. Ora emerge o cenário de uma Igreja voltada mais para o institucional, valorizando os aspectos normativos e doutrinais. Ora se vislumbra o cenário de uma Igreja de cunho mais carismático, ligada aos movimentos, onde se acentua mais a experiência intimista de Deus e a emoção. Ora emerge o cenário de uma Igreja que acentua mais o aspecto do conhecimento, da palavra e da pregação, preocupada com a formação de agentes e a fundamentação das verdades de fé. Por fim, aparece o cenário de uma Igreja mais comprometida com a causa dos excluídos e a sua libertação, que acredita ser sinal do Reino a implantação da justiça nas relações humanas. Por isso, sendo fiel ao seguimento de Jesus Cristo, anuncia a boa nova aos pobres e excluídos da sociedade, propondo vida fraterna com justiça para todos.

3.       Essas expressões de Igreja, presentes entre nós, são percebidas nas diferentes formas de evangelizar, no jeito de celebrar a vida e a fé, no exercício dos ministérios, na elaboração da teologia e nas diferentes motivações que levam a assumir e viver a fé e a vocação. Por isso mesmo, permanece para nós o desafio de, com a inspiração e a ajuda do Espírito, construirmos uma Igreja, onde todos os aspectos essenciais para a sua vida e para a sua missão, no meio da humanidade, sejam bem integrados.

 

III. A LUMINOSIDADE DA PASTORAL VOCACIONAL

Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder…” (Mt 5,14).

4.       Vimos que as diferentes maneiras de compreender a Igreja e a pastoral vocacional nos trazem luzes e esperanças. Em nível eclesial, cresce a consciência de que somos uma Igreja toda ministerial, envolvida com a pastoral de conjunto, expressando a comunhão e co-responsabilidade nos diferentes serviços e ministérios; cresce, cada vez mais, a colaboração entre as dioceses, as congregações e institutos com a significativa presença de leigos e leigas.

5.       No âmbito da pastoral vocacional, cresce a consciência de que todos somos animadores vocacionais, qualificados e inseridos na pastoral de conjunto. Para isto, incentivam-se todas as vocações e ministérios, superando a idéia de que vocação é somente para o ministério ordenado e para a vida consagrada. Multiplicam-se, com criatividade, subsídios, encontros, cursos e escolas vocacionais, grupos de vivência e de experiência missionária. Leigos e leigas têm assumido, com entusiasmo, sua missão de animadores vocacionais.

 

IV. UM CAMINHO A PERCORRER

“Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,7).

6.       Mesmo com tantas luzes, vimos que ainda há muitas sombras que atrapalham a caminhada: a falta de uma pastoral de conjunto, de testemunho e de apoio de padres e de pessoas de vida consagrada. Trabalha-se mais a vocação do padre e da religiosa, sem considerar a especificidade do leigo e da leiga, do religioso irmão, da vida contemplativa, do diaconato permanente e dos diferentes ministérios. A mulher não é suficientemente valorizada na Igreja e nem reconhecida pela contribuição que oferece. Já não se ouve mais, com o mesmo vigor de antes, a voz profética na Igreja capaz de atrair e fascinar. A evangelização nem sempre é expressão de comunhão e participação.

7.       Na pastoral vocacional falta uma maior integração e articulação entre dioceses, congregações, paróquias e pastorais. Há trabalhos isolados e “proselitismo” de certas congregações, dioceses e movimentos. Muitos se preocupam mais com a quantidade, aceitando os egressos, desconsiderando as orientações da Igreja, em prejuízo da qualidade dos vocacionados. Algumas vezes ocorre uma formação desatualizada, sem considerar o grau de maturidade e a cultura dos candidatos e dos formadores. Trabalha-se pouco a vocação do leigo; utiliza-se ainda uma linguagem rural nos centros urbanos. Em muitos casos, a experiência que os jovens trazem dos movimentos para as casas de formação é passageira e pouco aprofundada. Muitos animadores e animadoras  vocacionais estão sobrecarregados e despreparados para o serviço vocacional, sem os devidos meios para desenvolver seu ministério.

 

V. CHAMADOS PARA O AMOR

Levantai os olhos e contemplai; os campos já estão dourados para ceifar” (Jo 4,35).

8.       A vocação é amar. A pessoa humana é um ser no amor e para o amor. Precisa-se recuperar o autêntico sentido de vocação e ministério que às vezes é compreendido numa perspectiva funcionalista. O fundamental da vocação é o ser pessoa humana e cristã, forjada por uma autêntica espiritualidade evangélica. Todo cristão é um vocacionado, chamado a dar testemunho do evangelho.

9.       Dentro desta perspectiva, precisamos, o quanto antes, resgatar a grande vocação à vida. Numa sociedade como a nossa, que, na maioria das vezes, valoriza somente o ter e o poder, é indispensável promover em todas as pessoas humanas a consciência de que somos chamados e chamadas por Deus para vivermos em plenitude. Assim sendo, a pastoral vocacional, nas suas mais diversas atividades, deverá deixar bem claro que toda forma de exclusão e de discriminação fere o projeto da Trindade para a humanidade. Tendo presente esta verdade, o serviço de animação vocacional da Igreja deverá ser um anúncio de que todas as pessoas, feitas à imagem e semelhança do Criador, precisam ser respeitadas em todos os seus direitos inalienáveis.

10.   Embora se fale muito sobre vocação e pastoral vocacional, sente-se, ainda, a falta de uma teologia mais sistemática sobre as vocações. A teologia das vocações deve considerar a dimensão trinitária. Deus é a fonte da vocação: o Pai chama para a missão; o Filho, servidor do Pai, exprime esse chamado, nos envia; e o Espírito Santo faz ecoar a palavra em vista do bem de todos. Em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito carne, encontra-se o fascínio para penetrar no mistério trinitário e responder à vocação.

 

VI. A COMUNIDADE DOS VOCACIONADOS

Eram assíduos ao ensinamento dos apóstolos e à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42).

11.   A Igreja é a assembléia dos vocacionados à santidade. Ela não é a fonte, mas a mediadora da vocação e o lugar de sua manifestação. Ela não dá vocação ou carismas, mas discerne e organiza os ministérios. A vocação e os ministérios são elementos fundamentais e constitutivos da Igreja. Sem vocações e ministérios, não há uma comunidade eclesial. A partir do batismo, todos somos chamados à santidade, à fé, ao seguimento do Senhor, à graça. Todas as outras vocações nascem da vocação batismal. O batismo é a base que sustenta todos os ministérios. A missão da Igreja é transformar o mundo, sendo sinal e instrumento de realização do Reino de Deus.

12.   Dentro desta perspectiva, a pastoral vocacional é uma ação evangelizadora, uma atividade eclesial da comunidade de fé, que traz consigo uma visão de Deus, de pessoa humana, de Igreja, de missão e de mundo. Todos, na Igreja, são chamados para um determinado serviço. Somos um povo de servidores. Nossa prioridade é a promoção da vida, dos direitos humanos, resgatando os que sofrem a exclusão social.

13.   A vocação dos ministros ordenados está a serviço das outras vocações. Ela é estrutural e estruturante na Igreja. É o serviço que organiza os demais serviços. Todos, porém, somos servos uns dos outros, vocações irmãs entre si. Trata-se de um ministério em função dos outros serviços da comunidade eclesial, numa visão recíproca e fraterna das vocações. Portanto, busca-se construir uma Igreja de co-responsabilidade e comunhão. 

 

VII.O SERVIÇO AOS PEQUENOS

Eu vi, vi a opressão do meu povo no Egito e ouvi o clamor…” (Ex 3,7).

14.   A pastoral vocacional, no Brasil, tem suas características específicas, tais como: a criatividade e o pioneirismo de presença junto ao povo, o compromisso com a causa popular e a inserção nas comunidades. A vivência próxima ao povo ajuda os vocacionados e vocacionadas no discernimento de formas mais solidárias e de evangélica opção preferencial pelos pobres. Esta relação de proximidade dá sentido e vigor a uma Igreja de comunhão e participação.

 

VIII. A MÍSTICA DOS ANIMADORES E ANIMADORAS

Senhor, ensina-nos a rezar, como João ensinou a seus discípulos ” (Lc 11,1).

15.   A mística e a espiritualidade trinitárias são fontes que redefinem a dimensão profética e sócio- transformadora da pastoral vocacional, e dão vigor à vivência da fé e à luta pela justiça. Neste sentido, recoloca-se a questão da fé e da política a partir da mística e da espiritualidade. A realidade torna-se um fator de discernimento para o vocacionado e vocacionada, dando-lhes sensibilidade social e compaixão pelo povo excluído. O chamado vem de Deus, através de muitas mediações humanas que precisamos ler com os olhos da fé.

16.   Todavia, para que se possa perceber as mediações humanas como verdadeiros sinais dos tempos, como apelos da Trindade, que chama para a missão, é indispensável a escuta atenta e ardorosa da palavra de Deus, no silêncio do coração e na partilha em comunidade. Por isso mesmo, a oração, de modo particular aquela litúrgica, é a fonte de onde jorra todo o dinamismo vocacional. Enquanto fruto da fé e da graça de Deus, a oração abre os corações para a generosidade e o serviço. Nela os vocacionados e as vocacionadas encontram a força e a audácia para responderem, com generosidade e prontidão, ao chamamento divino. Os animadores e as animadoras vocacionais buscam o entusiasmo e a coragem para lançar, em nome do Senhor da Messe, uma verdadeira proposta vocacional.

17.   Portanto, as vocações nascem de uma Igreja orante. Por essa razão, a pastoral vocacional deve insistir na necessidade de rezar sempre pelas vocações. Fiel ao mandamento do Senhor, cada comunidade eclesial se colocará numa atitude permanente de súplica. Ela vai interceder  não apenas pelo surgimento de novos vocacionados e vocacionadas. Pensará também nas reais necessidades da Igreja, neste campo vocacional, pedindo pela qualidade das vocações e para que o Espírito suscite, dentro dela, a variedade e a complementaridade dos carismas. Rezará, ainda, pela perseverança de todos aqueles e aquelas que receberam o chamado divino.

 

IX. AS ESPERANÇAS E OS SONHOS

“Reaviva o carisma de Deus que há em ti” (2Tm 1,6).

18.   A oração verdadeira conduz à ação, à busca corajosa da vontade de Deus. Leva-nos à criatividade, a procurar respostas concretas para os desafios que encontramos na construção da história, segundo o desígnio divino. Por isso, acreditamos que a pastoral vocacional do novo milênio, no Brasil, deverá ter o seguinte rosto: a) uma Pastoral vocacional marcada por uma ampla ministerialidade, vivida na comunhão e participação e fundamentada numa espiritualidade trinitária; b) uma pastoral vocacional inculturada, dialogal, profética e ecumênica, aberta aos sinais dos tempos, que reforça a escolha e a liberdade dos vocacionados e vocacionadas (cf. Mt 19,21); c) uma pastoral vocacional que valoriza a pessoa na sua dimensão antropológica, integrando os diversos aspectos do vocacionado e vocacionada, ajudando-os a fazer uma autêntica experiência cristã de Deus; d) uma pastoral vocacional atenta à cultura urbana, englobando as questões sociais e da pós-modernidade.

19.   Alguns temas da pastoral vocacional necessitam de um maior aprofundamento. Entre eles, destacamos: a) as dimensões trinitária, cristológica, eclesiológica e mariológica das vocações; b) a sensibilidade ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso; c) a atenção à leitura orante da Bíblia na ótica vocacional e não apenas aos textos vocacionais; d) a atenção aos excluídos, aos portadores de deficiência e à diversidade cultural, sobretudo com relação aos indígenas, aos nômades, aos migrantes e aos afro-brasileiros; e) a integração com as pastorais afins, especialmente a família, a juventude e catequese, à luz das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora; f) as questões do celibato e castidade, de gênero (feminino e masculino), da afetividade e sexualidade, da homossexualidade, a partir da antropologia cristã; g) a mística e a espiritualidade do formador e formadora, e do vocacionado e vocacionada; h) os aspectos bíblicos e teológicos do carisma e da missão do leigo, do ministério ordenado e da vida consagrada; i) as estruturas formativas dos seminários e das casas de formação, o papel da hierarquia e do povo de Deus no discernimento vocacional.

 

X. DESAFIOS

Vinho novo em barris novos” (Mc 2,22).

20.   O Congresso Vocacional foi um ponto de chegada e de partida, um momento de síntese e projeção da pastoral vocacional no Brasil. Percorreu-se um longo caminho, que se iniciou com o estudo do Texto base e outras atividades, culminando com a realização do Congresso, fazendo-nos partir animados em missão. Um novo referencial se apresenta! Foi uma oportunidade de rever e projetar a caminhada da pastoral vocacional que, certamente, irá irradiar luzes em todas as regiões do Brasil e, por que não dizer, em toda a Igreja.

21.   Permanecem alguns desafios, que, juntos, queremos assumir: a) a coragem dos animadores e animadoras de propor a opção alegre e radical do seguimento de Cristo; b) o testemunho coerente e transparente de todos os seguidores e seguidoras de Jesus, que é a regra de ouro da animação vocacional; c) a necessidade de uma mística profunda e inculturada, capaz de comunicar a própria experiência de comunhão com a Trindade e que abra as pessoas para o serviço aos irmãos e às irmãs; d) a organização e articulação das equipes de animação vocacional capazes de ir ao encontro dos vocacionados e das vocacionadas; e) um processo de inculturação mais adequado à juventude, destacando a questão da linguagem, dos símbolos, dos paradigmas e da comunicação dos animadores e animadoras; f) a qualificação dos agentes da pastoral vocacional, a fim de que as Igrejas locais, congregações e institutos invistam decisivamente na formação dos animadores e das animadoras, uma vez que não é suficiente a boa vontade, mas torna-se indispensável, hoje, uma verdadeira competência; g) a questão do itinerário vocacional, sem queimar as etapas (despertar, discernir, cultivar e acompanhar), evitando a pressa e a precipitação; h) a questão da afetividade e da sexualidade dos animadores e animadoras vocacionais, dos vocacionados e vocacionadas.

 

XI. PISTAS DE AÇÃO

O Senhor agia com eles e confirmava a palavra por meio dos sinais que a acompanhavam ” (Mc 16,20).

22.   O Congresso assinalou muitas pistas de ação para o trabalho integrado da pastoral vocacional. Destacou, de modo particular, a importância de se investir em ações concretas inculturadas. Para revitalizar a pastoral vocacional no novo milênio, assumimos, como compromisso, por amor e vocação, com fé e coragem, as seguintes propostas operativas:

 

1. Dimensões eclesiais e formação de agentes vocacionais

23.   Promover uma consciência e mentalidade vocacional em toda a ação evangelizadora da Igreja.

Estratégias:

a)       Implantar equipes vocacionais em todas as comunidades eclesiais, criando, entre elas e seus membros, laços afetivos;

b)      ter, como critério para a aceitação nos seminários e casas de formação, jovens que tenham sido acompanhados pela equipe de pastoral vocacional;

c)       incentivar e vivenciar, na comunidade, a dimensão orante  pelas vocações e ministérios.

24.   Favorecer os ministérios dos cristãos leigos e leigas, nas comunidades eclesiais.

Estratégias:

a)       Despertar e conscientizar para o valor e a importância de uma comunidade toda ministerial, através de missões populares, escolas vocacionais;

b)      criar e incentivar, nas dioceses e/ou paróquias, escolas de teologia para leigos, semanas teológicas e cursos intensivos de formação.

25.   Estruturar a pastoral vocacional nas paróquias, dioceses e  regionais.

Estratégias:

a)       Estudar documentos, textos, livros, subsídios que orientem a implantação e a organização das equipes vocacionais;

b)      cuidar da capacitação e da qualificação dos animadores e das animadoras vocacionais.

26.   Formar e preparar os animadores e animadoras vocacionais para o diálogo com a cultura urbana, buscando conhecer melhor os valores da cidade.

Estratégias:

a)       Organizar cursos especializados para capacitar os animadores e animadoras vocacionais para esta finalidade, servindo-se, de modo particular, das ciências psicossociais;

b)      promover atividades que levem animadores e vocacionados a se aproximarem, sempre mais, dos excluídos que vivem nas cidades.

 

27.   Aprofundar a teologia da missão, promovendo um serviço de animação vocacional, que considere a dimensão missionária da Igreja.

Estratégias:

a)       Promover e valorizar experiências missionárias presentes nas regiões, inclusive a da infância missionária;

b)      inserir, nos conteúdos de formação dos animadores e animadoras vocacionais, a questão missionária.

28.   Trabalhar, na pastoral vocacional, a questão da inculturação em relação às várias etnias.

Estratégias:

a)       Coletar e divulgar subsídios que ajudem a estabelecer e aprofundar o diálogo com as etnias;

b)      convocar os grupos que já trabalham essa realidade, como, por exemplo, os grupos e pastorais afro-indígenas, de nômades, de migrantes, para refletir a questão vocacional;

c)       dar ênfase ao diálogo com os variados grupos eclesiais e da sociedade civil que podem contribuir com a reflexão teológica e a evangelização.

 

2. Organização e etapas do processo vocacional

29.   Despertar para a animação vocacional desde as etapas iniciais na vida consagrada.

Estratégias:

a)       Estudar os documentos da Igreja sobre a temática da vocação e da pastoral vocacional;

b)      fazer com que o tema da pastoral vocacional esteja presente nos cursos da formação inicial e permanente;

c)       qualificar os agentes da pastoral vocacional com a participação em cursos específicos;

d)      fazer reuniões para reflexão, planejamento e revisão entre os animadores de pastoral vocacional e equipe de formação.

30.   Envolver a comunidade no discernimento vocacional.

Estratégias:

a)       Promover um diálogo entre as equipes vocacionais e outros setores da comunidade eclesial, utilizando-se de encontros, retiros, momentos de oração e outros;

b)      considerar, como critérios fundamentais para o discernimento, o engajamento na comunidade, o equilíbrio psico-afetivo, a sensibilidade ao sofrimento do povo e a liberdade;

c)       verificar se as motivações dos vocacionados e vocacionadas são, de fato, evangélicas;

d)      utilizar-se, sempre que necessário, do apoio de pessoas e de recursos psicopedagógicos, tais como: testes, entrevistas, terapias e outros.

31.   Fazer acompanhamento personalizado e grupal dos vocacionados e vocacionadas nas suas famílias e comunidades.

Estratégias:

a)       Oferecer acompanhamento humano e espiritual, com a ajuda de especialistas, quando necessário;

b)      oferecer retiros, encontros, plantões vocacionais e momentos celebrativos;

c)       acompanhar as famílias dos vocacionados e vocacionadas, com visitas e encontros;

d)      motivar o jovem ao engajamento nos ministérios e pastorais da comunidade.

32.   Formar e capacitar as equipes de animação vocacional para o serviço do acompanhamento personalizado.

Estratégias:

a)       Oferecer e incentivar a participação dos membros da equipe em cursos e encontros periódicos de aprofundamento multidisciplinares, especialmente na área da antropologia, psicologia, metodologia, cultura e espiritualidade;

b)      incentivar, em todas as dioceses, a criação do serviço de animação e acompanhamento vocacional.

 

3. Integração e parcerias da pastoral vocacional

33.   Fazer a integração entre a pastoral vocacional e as pastorais afins (família, juventude, catequese…).

Estratégias:

a)       Marcar presença nas diversas atividades tais como: semana nacional da família, dia nacional da juventude, dia mundial de oração pelas vocações, preparação dos sacramentos e outros;

b)      incluir este aspecto na formação dos animadores e animadoras vocacionais e dos responsáveis pelas referidas pastorais;

c)       elaborar subsídios que ajudem na conscientização desta questão;

d)      levar o jovem ao engajamento na vida social da comunidade, como por exemplo: sindicatos, organizações da sociedade civil e associações;

e)      realizar encontros e/ou assembléias paroquiais, diocesanas, regionais, para aprofundar a questão da integração entre pastoral vocacional e pastorais afins.

34.   Priorizar o despertar vocacional na família, uma vez que ela é “sementeira de vocações”.

Estratégias:

a)       Promover encontros e elaborar subsídios para despertar a consciência vocacional na e da família;

b)      incentivar, onde não existe, a criação da pastoral familiar e a participação das famílias na mesma;

c)       elaborar subsídios para a pastoral familiar e do batismo, que incluam o serviço de animação vocacional;

d)      utilizar os momentos celebrativos da família para trabalhar a dimensão vocacional.

35.   Incentivar a criação ou revitalização da pastoral do adolescente.

Estratégias:

a)       Formar animadores e animadoras qualificados no campo psicossocial e bíblico-teológico;

b)      utilizar-se das escolas de formação vocacional ou criar cursos afins;

c)       fornecer material sistematizado destacando elementos metodológicos e de espiritualidade.

36.   Fazer um trabalho de integração entre pastoral da juventude e pastoral vocacional, respeitando a especificidade e a identidade de cada uma.

Estratégias:

a)       Formar uma comissão representativa para elaborar propostas e subsídios que viabilizem essa integração;

b)      fazer, a longo e médio prazos, uma grande concentração (diocesana, regional e nacional) para celebrar as dimensões vocacional e ministerial da juventude.

37.   Promover um serviço de animação vocacional no meio universitário.

Estratégias:

a)        Fazer uma sondagem do que já existe a esse respeito na pastoral universitária;

b)        identificar, nas comunidades eclesiais, os universitários existentes;

c)        promover encontros, retiros, cursos, dias de lazer com os universitários, numa perspectiva vocacional;

d)        incentivar um trabalho de parceria entre pastoral vocacional e pastoral universitária.

38.   Capacitar os catequistas para trabalhar a dimensão vocacional no conteúdo da catequese, a fim de favorecer o despertar ministerial e o engajamento eclesial.

Estratégias:

a)       Elaborar e/ou adaptar subsídios catequéticos que contemplem a dimensão vocacional;

b)   contemplar a dimensão vocacional na formação dos catequistas;

c)       integrar a pastoral vocacional no processo de planejamento, efetivação e avaliação da catequese da crisma.

39.   Realizar uma maior integração entre os institutos de vida consagrada e as instâncias pastorais das Igrejas locais.

Estratégias:

a)       Integrar e promover a presença dos consagrados e consagradas nas equipes vocacionais diocesanas e paroquiais e nas pastorais afins (catequese, juventude e família);

b)      promover, nos núcleos da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), um trabalho vocacional intercongregacional;

c)       apoiar uma maior integração entre a vida consagrada e o clero diocesano.

40.   Enfatizar, no ano litúrgico, a dimensão vocacional.

Estratégias:

a)       Integrar a pastoral vocacional com as equipes de liturgia das comunidades;

b)      destacar sempre a dimensão vocacional de toda a palavra de Deus;

c)       utilizar também as missões populares, semanas jubilares e outros elementos da religiosidade popular;

d)      enfatizar o mês vocacional e o dia mundial de oração pelas vocações.

41.   Trabalhar, na educação, o chamado à vida, a ser pessoa, a ser cristão, engajado na sociedade e nos diferentes ministérios eclesiais.

Estratégias:

a)       Oferecer, às escolas e às universidades, subsídios vocacionais, jogos, teatros, músicas e outros que expressem a relação com o exercício da profissão e com os direitos humanos;

b)      capacitar a comunidade escolar, de modo particular os professores de ensino religioso, para que trabalhem a dimensão vocacional;

c)       promover cursos, encontros de formação, gincanas, maratonas e outros.

 

42.   Realizar uma interação entre a pastoral vocacional e a realidade política, em vista da libertação integral da pessoa humana.

Estratégias:

a)       Conscientizar nossas comunidades sobre a dimensão política da fé e da vocação;

b)      despertar, apoiar e acompanhar as pessoas da comunidade que são vocacionadas para a militância política.

 

43.   Aproveitar os espaços existentes nos meios de comunicação social para divulgar a questão vocacional.

Estratégias:

a)       Trabalhar em conjunto com a pastoral da comunicação;

b)      solicitar assessoria técnica de profissionais desse setor;

c)       utilizar os recursos dos “outdoors” e outros;

d)   utilizar melhor os programas de rádio para fazer animação vocacional.

 

 

 

4. Serviços e recursos

44.   Redefinir o espaço existente no site da CNBB, no Setor Vocações e Ministérios, com a temática vocacional e ministerial.

Estratégias:

a)       Atualizar freqüentemente o site, com textos vocacionais e informativos sobre o assunto;

b)      fornecer endereços dos seminários e das casas de formação;

c)       dar informações das congregações, institutos seculares e organizações laicais, especificando seus carismas e obras apostólicas;

d)      divulgar as escolas vocacionais e ministeriais, as atividades e o site do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV).

45.   Inserir a teologia da vocação e dos ministérios no currículo teológico dos seminários e das casas de formação e nos cursos de formação permanente.

46.   Viabilizar financeiramente as ações acima referidas, prevendo os recursos necessários.

 

XII. UMA NOVA ESPERANÇA

“Adianta-te e alcança aquele que vai…”(At 8,29).

47.   Durante o Congresso, consideramos, inicialmente, o contexto social e eclesial no qual somos chamados a viver a nossa vocação e missão de mediadoras e mediadores do chamamento divino. Em seguida, procuramos iluminá-lo com uma teologia e uma eclesiologia da vocação. Buscamos, enfim, as pistas que vão nos orientar neste nosso serviço, no alvorecer do novo milênio. No final deste trabalho, partimos para as nossas comunidades enriquecidos e enriquecidas pela maravilhosa experiência destes dias de oração, estudo e partilha.

48.   Voltamos às nossas Igrejas locais com a certeza de que este 1º Congresso Vocacional será um grande referencial para o nosso serviço de animação vocacional nos próximos anos. Temos a consciência de que o trabalho aqui realizado, num grande mutirão vocacional, nos ajudará a “discernir os sinais dos tempos” (cf. Lc 12,54-59). Sensíveis aos apelos do Senhor, na história, poderemos realizar uma pastoral vocacional realmente nova. Saímos daqui com um enorme desejo de que se concretize, em nossa caminhada, o grande sonho de vermos todos os batizados e batizadas “seguindo Jesus pelo caminho” (Mc10,52b). O sonho de termos, cada vez mais, uma Igreja plenamente consciente de ser uma assembléia de pessoas, convocadas e reunidas pelo infinito amor da Trindade, na riqueza da diversidade e complementaridade das vocações, carismas e ministérios.

49.   Concluímos os nossos trabalhos elevando uma súplica ardente ao Senhor da Messe, pedindo que Ele, pela intercessão de Maria, Nossa Senhora de Aparecida, a Mãe das vocações, modelo de todos os vocacionados e vocacionadas, ilumine a pastoral vocacional no Brasil, a fim de que ela possa continuar caminhando, com ardor e entusiasmo, em sintonia com os apelos da nossa história e na criativa e fecunda fidelidade ao evangelho.

 

Itaici, Indaiatuba (SP) – Brasil, 05 de setembro de 1999.

 


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